Um governo esvaziado e ridiculamente avaliado, um Supremo nomeado, dois presidentes do Legislativo (Senado e Câmara dos Deputados) suspeitos na Operação Lava Jato e um Tribunal de Contas de faz de conta, é a intragável receita para estragar o cozinhado das ruas do Brasil.
O divórcio já reconhecido entre o asfalto e o poder transformou as grandes manifestações de 16/8, num cívico programa dominical, quiçá com a família! O verde e o amarelo inundando avenidas e praças têm mais de amor ao Brasil deitado e inerte, nocauteado e deprimido, do que força real de quem pode mudar a política brasileira. Hoje, mais do que nunca, somos órfãos! Os que nos governam se assentam apenas (e é muito pouco) na legalidade do voto adquirido. Sabe-se hoje, à base de poderio econômico suspeito. A oposição, que quase levou, não inspira qualquer esperança de mudança ou de alternativa. Não consegue o mínimo: catalisar o grito desesperado dos que não suportam mais o cinismo espoliador desta nação. A Justiça? Está fazendo a sua parte, denunciando, indiciando, condenando. Mas o náufrago esperançoso verde e amarelo tende a morrer na praia, sufocado pelos infinitos recursos legais previstos num sistema que parece ter sido bolado para que tudo fique do mesmo jeito!
Torna-se repetitivo e quase inócuo dizer que o sistema político brasileiro é iníquo e perverso em todos os sentidos. Se a Justiça com seus meandros legais é um imbróglio para manter os presídios repletos de ladrões de galinha e fazer prescrever crimes graves de colarinho branco, o poder com suas artimanhas foi elaborado para ignorar completamente as bases. Não é por acaso que nas ruas se reclamava um código de defesa do eleitor! O atual modelo permite conchavos aberrantes, geradores de mais inércia, visando apenas empurrar para próximos pleitos eleitorais a resolução de gravíssimos problemas políticos e econômicos. Num país parlamentarista, por exemplo, o presidente ou o monarca já teriam com certeza substituído o governo, dentro da maior tranquilidade democrática. Em Brasília, o máximo atingido é o teto do "respeito pela democracia e pelo direito das manifestações"! Nada mais. É tudo o que o sistema acolhendo cabeças inglórias e amorais consegue! No passado tivemos renúncias e coisas piores, mas isso não está em nenhum parágrafo especial do estatuto da decência governativa.
Não estamos isolados. Não é consolo, apenas constatação. O mundo está mudando. Desde 1990 que se ensaia uma sobrevivência à morte da Guerra Fria e ao colapso dos sistemas marxistas hegemônicos. Aqui e ali, em países latino-americanos e orientais, antigos idealistas, agora convertidos em pragmáticos tentam o poder pelo poder, por vias democráticas. Seria o totalitarismo com rosto de democracia ou a democracia enquadrada em visões totalitárias? Não sei responder, mas não estamos sós. Um regime democrático que impeça o povo de uma participação permanente muito além do processo eleitoral é totalitário e enganador. Estar na rua levantando bandeiras ou inundar praças de forma festiva, mostrando ao mundo o despertar do "leão adormecido", pode não significar muito, neste contexto!
Temo pela esterilidade das manifestações. Tenho receio que Brasília fique apenas pela contagem numérica das mesmas e ganhe fôlego – palavra mágica no governo – ao constatar que já foram maiores! A mediocridade também tem instintos de sobrevivência. E o que temos visto aponta para a requisição de tudo que estiver ao alcance para tal. Sejam programas de salvação nacional vindos do presidente do Senado, seja a entrega de ministérios com "porteira fechada", aos aliados para bloquear possíveis pedidos de impeachment! Proposta do ex-presidente! Acredito que milhões de brasileiros fariam um último esforço e se agregariam em torno de um projeto de salvação nacional. Mas não o farão com o barulho ensurdecedor de mensalões, petrolões e outros que estão por vir! O senso ético pode estar enfraquecido, mas não sumiu do inconsciente da maioria dos cidadãos.

MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina

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