Evidentemente, que a grande maioria da sociedade brasileira vai querer que seja reduzida a maioridade penal, principalmente para crimes hediondos. A mentalidade coletiva funciona como a "Síndrome do Interruptor", ou seja, acredita-se que basta um click para resolver uma questão. Os níveis de violência no Brasil são insuportáveis, mas não será com medidas pontuais que vamos resolvê-las. Antes de um jovem se tornar violento, ele foi indisciplinado. Na infância não teve pequenos desvios disciplinares tratados adequadamente, como quando desrespeitou a mãe, a vó, depois a professora, o diretor da escola, até que agrediu os colegas, e assim por diante.

Portanto, tratar dependente de drogas, julgar e prender bandido - seja ele menor ou maior de idade -, é o mesmo que "enxugar gelo", não acaba nunca.
Precisamos urgentemente que sejam tratados e bem resolvidos os problemas disciplinares, nas famílias, em primeiro lugar, e na escola, em segundo.

A escola precisa ser o grande agente agregador de solução da indisciplina. Muito antes da polícia, a escola precisa ter autonomia para chamar e "enquadrar" a família. Por exemplo, quando o aluno falta à escola sem justificativa, quando o aluno falta com respeito ao professor, quando o aluno não acompanha as aulas e não se desenvolve, a escola precisa ter autonomia pedagógica.

Nesse conceito entram as técnicas de ensinar e aprender, e fundamentalmente a formação humana, em que o professor e a escola são os adultos da relação, são os exemplos, são aqueles que não podem faltar ao trabalho com qualquer desculpa, que devem ter clara a consciência que criança aprende pelo exemplo e pelos atos dos adultos, não pelo que os adultos falam.

A sociedade brasileira se espelha na americana, onde o direito individual está sempre acima do coletivo. Então, se a criança não quer ir à escola, é direito dela; se não aprende, a culpa é da professora ou da escola; se grita com a mãe, coitada da mãe que não sabe lidar com o gênio dela. Ou seja, tendemos a ter sempre muitas cadeias e poucas escolas.

Enquanto países como a Suécia e a Holanda fecham presídios, o Brasil fecha escolas. Se observarmos a cultura desses países, o direito coletivo vem antes do individual, todos têm os deveres e depois direitos. Portanto, ser contra ou a favor da redução da maioridade penal é apenas uma questão pontual. Por um lado, não resolverá nada a questão da violência, pois ela já está instalada na sociedade. Por outro, novamente não discutimos e encaminhamos o real problema, que se chama educação voltada para valores, e, dentre eles o respeito ao outro. Quando realmente tratarmos o assunto, veremos em 20 ou 30 anos a diminuição do número de cadeias, pois teremos educado direito nossas crianças.

A aprovação da redução da maioridade penal apenas retira o álibi dos adolescentes e adultos criminosos que usam os menores para os crimes mais bárbaros. Mas como a sociedade avança apesar da lei, não se assuste se logo após for aprovada a diminuição para 16 anos, passarem a fazer o serviço "sujo" os menores de 16, e daí o que faremos?

ADEMAR BATISTA PEREIRA é educador em Curitiba

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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