A feiura
Sylvio do Amaral Schreiner

Percebo que o centro de Londrina, que sempre me chamou atenção pela beleza, já vem há algum tempo se deteriorando. Há bem mais prédios abandonados, sem nenhum cuidado e as pichações estão cada vez mais presentes e se alastrando pela cidade. A feiura está se espalhando e o que assusta é que muitas pessoas não estão nem se dando conta do que vem acontecendo.
Quando as ruas de uma cidade ficam feias por falta de investimentos, por descaso e falta de segurança isso abre espaço para o vandalismo. Pichações são demonstrações de vandalismo e estas atitudes têm ligação com nossos impulsos agressivos. Todos carregam agressividade, é parte de nossa natureza, mas nem por isso significa que a agressividade precisa ser atuada sem nenhum filtro. Um indivíduo que não pôde, ao longo de sua história, construir uma mente para pensar sobre os próprios impulsos fica vulnerável aos impulsos agressivos, não tem uma barreira que os impeça de serem destrutivos.
Uma cidade que vai se tornando feia, em última instância, mostra que não há mais barreiras, filtros, opções para os seus cidadãos viverem seus impulsos agressivos e os tornam na mais pura expressão do ódio. Atos de vandalismo são expressões de ódio e a cidade destruída e feia é apenas a imagem de toda essa agressividade que existe em seus moradores. As mentes desses vândalos estão no mesmo estado do que fazem nas ruas: estão destruídas e enfeiadas.
A gente projeta, ou seja, põe para fora o que existe dentro. Cidades sujas, destruídas, pichadas são mostras do que há na mente de seus cidadãos. O humano é um animal, mas muitas vezes pode ser mais animal do que humano. Com animal podemos entender o lado mais primitivo, que é incapaz de pensar e de conter os próprios impulsos destrutivos. Todos - moradores, políticos, polícia, professores, universitários - devemos pensar bem que tipo de mente queremos construir para que possamos deixar o lugar onde moramos bonito e cuidado. Se não cuidamos de nosso próprio mundo interno, não temos como cuidar de nosso mundo externo.

SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina

Todos temos nossa porção de culpa
Walmor Maccarini

Os problemas e as soluções são de responsabilidade de cada um, e não melhoraremos as instituições se não começarmos a nos melhorar como cidadãos. Esse processo é demorado, e nem todos os rigores da lei serão suficientes, por que o que se exige é tomada de consciência. No caso da redução da maioridade penal (ora aprovada por proposta de emenda constitucional para alguns tipos de crime, devendo ainda passar por votações no plenário da Câmara e do Senado e pela sanção presidencial), logo teremos de reduzi-la para 14 anos, depois 12, e de 2 em 2 chegaremos à idade zero. Na verdade, já estamos punindo pelo aborto muitos que ainda nem nasceram. A doutrina da punição é prevalecente na opinião pública, porque a da solução dos dramas sociais que induzem aos delitos é mais trabalhosa, e demanda dedicação de governos e de todos nós.
Males tão graves quanto a criminalidade praticada pelos menores são os dos fornecedores de armas e drogas produzidas e comercializadas pelos infratores maiores de idade, e que municiam os adolescentes com elas e os usam nos assaltos; são os governantes corrompidos que agridem e empobrecem a nação pelos impostos escorchantes, pela farra pública com o dinheiro do povo e o desprezo por atendimentos sociais decentes; são os que exploram os outros pelas muitas formas de dominação; são as igrejas eletrônicas, que sugam sem nenhuma punição o pouco dinheiro de muitos fiéis incautos, e por aí em diante.
Por exemplo, as leis estabelecem limites de velocidade para os veículos a motor, mas permitem que os fabricantes (gente adulta) os façam cada vez mais velozes, e exaltem isso na propaganda. Aí, os jovens correm e se matam. E nós, os velhos, os culpamos. Ademais, as rodovias brasileiras, por irresponsabilidade dos governos, não oferecem segurança para tanta velocidade. No caso da saúde e do ensino, o mal dos desatendimentos seria resolvido se os governantes reduzissem os gastos exorbitantes da máquina pública - onerosa e de baixa operância - para não falar das obras superfaturadas e da corrupção em geral, que se converteu em pestilência nacional e envolve também poderosos segmentos da sociedade.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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