O choro de Salete

Em meio ao caos e a barbárie que tomou conta do Centro Cívico no dia 29 de abril, ela assistia a tudo petrificada. E não por simplesmente ser de pedra, mas sim por ver ao seu redor a materialização da ignorância humana. Naquele dia, a face gélida se aqueceu pelas lágrimas que da pedra brotaram, Salete chorou. A praça Nossa Senhora de Salete foi palco daquela fatídica quarta-feira, onde a democracia foi rude e violentamente silenciada ao som de balas de borracha, bombas de efeito moral e gritos de professores. Se pudesse, a estátua da figura religiosa que dá nome à praça choraria de vergonha e tristeza pela atitude dos "ilustres governantes".
Por certo, o Paraná elegeu Beto Richa crente de que estávamos em bom caminho. Contudo, deparamo-nos com o abismo político no qual nossa terra se encontra e fomos traídos por nosso "desgovernador" e seus fiéis escudeiros da Assembleia Legislativa, apoiados e supostamente "legitimados" por decisões judiciais que permitiram transformar a Casa do povo numa fortaleza legislativa, onde somente os "eleitos" podem adentrar.
Contudo, os tiros de borracha saíram pela culatra, pois mesmo ferindo ainda mais aos professores, seus efeitos atingiram e atingirão cada vez mais aqueles que mandam seus usos. O que assistimos no Paraná é de fato e direito ato atentatório à democracia. No entanto, é fonte de fortalecimento da mesma, e não por que temos um governo que atende à ordem legal, mas por termos um povo que exige o cumprimento das liberdades democráticas.
Hoje Salete já não chora mais porque vê e vive com a população a evolução do sentimento político. Não mais nos calamos aos mandos e desmandos, nascentes do delírio de governantes que cegamente creem deter o poder. De fato, a lei foi aprovada, contudo sempre que se der seu cumprimento, o som daquele 29 de abril ecoará por todas as cidades e campos do Paraná. Porém, creio que tal aberração legal não terá vida longa.

GUILHERME AUGUSTO LIPPI GARBIN é estudante de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Paraná em Londrina




Depois da escuridão a claridade

Terremotos, tsunamis, inundações, destruição de cidades e desabrigo de contingentes populacionais, erupção de vulcões, secas ou chuvas em demasia prejudicando safras, bactérias até então desconhecidas e insetos contaminando pessoas e gerando sofrimento e mortes; fanáticos religiosos executando pessoas de credos diferentes, violência do homem contra o homem, governantes corrompidos, pessoas desonestas e golpistas, nações sucedendo-se no anseio de dominação, translado de pessoas de um país para outro singrando mares pela busca de sobrevida e morrendo pela precariedade de embarcações, gente explorando gente, conflitos ideológicos e inquietações sociais de toda a ordem.
Tudo isso é consequência em grande parte das irresponsabilidades e demências humanas, propagadas cada vez mais pelo inconsciente coletivo. Mas isso também obedece à lei dos ciclos, que incide sobre o destino planetário e tudo o que vive sob a face da Terra, aí compreendidos os expurgos e transmigrações que se sucedem – a lei imutável da marcha evolucionária. O caso recente do Nepal, com mais de oito mil mortos e milhares de feridos e desabrigados, pode ser uma dessas tragédias de desenlaces em massa, por aquelas razões. Fenômenos de domínio da sabedoria divina.
Nossa temporária morada terrena seria uma das zonas purgatoriais, um lugar de provações e aprendizado, de resgates cármicos e de purificação. Não castigos mas oportunidades da misericórdia divina para nosso salto evolutivo. As revelações nos falam de catástrofes ainda maiores que ocorrerão, para que depois comece a florescer uma era de bonança.
Tudo isso nos convoca a momentos de pausa e de solidariedade. A comoção das pessoas se intensifica nesses momentos amargos para tantos, e isso também refina-lhes o grau de sentimento e eleva-as para patamares superiores de sua escala evolucionária, ao tempo em que purifica a atmosfera terrena e limpa um pouco o planeta das vibrações negativas produzidas pela mente das massas. Vive-se um processo de escuridão, mas depois dessas tempestades da existência humana despontará a claridade e o desabrochar de um admirável tempo novo.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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