Os brasileiros, em sua grande maioria, ainda não acordaram para os verdadeiros problemas ambientais. Prevalece a imagem dos "risonhos, lindos campos", dos "bosques que têm mais vida", como se tudo fosse inesgotável e indestrutível. Em geral, ignora-se o fato de que no Brasil há desertificação, degradação de terras e ocorrência de secas por conta do desajuste climático que resulta de um processo socioambiental destruidor.
Essa imagem do Brasil "abençoado por Deus e bonito por natureza" começa a perder o sentido em meio às consequências dos abusos, da ação e da omissão do homem frente aos problemas ambientais. A degradação da natureza pelo homem está além de sua capacidade de renovação. Segundo relatório Pavan Sukhedv (Revista Época, 12/2010), sobre a economia dos ecossistemas e da biodiversidade, mais de 60% dos serviços naturais do mundo foram degradados nos últimos 60 anos, sem contar que a demanda por recursos naturais já é 35% maior que a capacidade de renovação do planeta.
Infelizmente, temos vivido momentos delicados sem que os brasileiros se manifestem, sem que a maioria se dê conta dos desmandos e da omissão. Em setembro, por exemplo, a presidente reeleita Dilma Rousseff não assinou acordo mundial para desmatamento. Além disso, país afora, todos os dias são emitidas autorizações e licenças ambientais sem qualquer critério, sem falar na poluição produzida todos os dias, matando a fauna, a flora, os rios e comprometendo de forma criminosa a natureza e, consequentemente a vida.
Em meio a uma crise hídrica que deixa milhares e milhares de pessoas sem água até para as suas necessidades mais vitais, várias regiões do país reagem de forma desordenada. Autoridades acusam a população pelo desperdício. A população acusa as autoridades pela falta de planejamento e de investimento. Na prática, a situação tem pelo menos o mérito de mostrar que já passou da hora de cada um assumir a sua responsabilidade. Olhar para o meio ambiente e adotar boas práticas ambientais são atitudes que estão para além do modismo. São atitudes que envolvem a verdadeira cidadania e, num plano mais geral, a própria sobrevivência da vida no planeta.
É triste saber que milhões de cidadãos ainda não aprenderam a votar. Escolhem seus candidatos às vésperas do pleito – muitas vezes até no dia da eleição. Depois que votam, se esquecem de quem elegeram. Poucos se importam com o que estão fazendo esses indivíduos que os representam. O voto torna-se, assim, um cheque em branco, que o eleito preenche e usa como quer. Como esperar boas práticas ambientais de quem passa à distância de princípios e conceitos tão básicos em termos de cidadania?
Brasileiro consciente do verdadeiro significado da cidadania faz a sua parte, corrige as atitudes do vizinho, importa-se com o seu bairro, com a escola de seu filho, com a segurança, com a destruição dos rios e com o que se decide no poder público. Esse cidadão vai ao Ministério Público para comunicar crimes ambientais e pedir soluções, faz protocolo nos órgãos públicos, não é omisso e não procura políticos apenas em busca de benefícios pessoais. Ele sabe que, se efetivamente todo poder emana do povo, o País só será sério no dia em que o povo não puder ser manipulado, nem comprado.
O artigo 225 da Constituição inclui cada um de nós na tarefa de conservação do meio ambiente. Segundo o artigo 225, todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para a presente e futuras gerações. Assim, eu e você estamos inclusos no rol dos responsáveis pela proteção do meio ambiente – ou incorremos em crime de omissão. Chega de ficar "deitado eternamente". A hora é de agir. E agir com a maneira firme e determinada que a situação requer, hora de começar assumindo a sua responsabilidade como cidadão.

SANDRA REGINA GASPAROTTI DE SOUZA é advogada e presidente do Observatório Ambiental de Arapongas (OAA)

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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