Dia da Consciência Negra
TITO VALLE


Hoje 20 de novembro – Dia da Consciência Negra, dia de pensarmos na igualdade num país onde ela ainda precisa ser consolidada. O feriado que é comemorado em 1.044 cidades de nosso imenso país, seria a oportunidade de uma reflexão mais profunda pelo setor econômico do quanto a exclusão afeta prejudicialmente o lucro das empresas e até no crescimento do PIB da nação.
Andamos para trás quando deixamos que questões inclusivas deixem de ser levadas em conta, pois ainda carregamos as sequelas das injustiças praticadas sob o manto da legalidade, com tutela da "religião oficial", por mais de 350 anos.
As moradias improvisadas, a ocupação dos morros e fundos de vale, os moradores de rua, a violência praticada contra crianças e adolescentes, o desamparo às mães solteiras, enfim muitas das mazelas que atingem a nossa gente decorre da injustiça praticada sob a tutela do Estado por centenas de anos. Um dia é pouco para esta reflexão, comparado aos mais de 300 de injustiça e violência.
Em Londrina tivemos a oportunidade de propor a lei e festejar Zumbi e o sonho de liberdade dos Palmares por dois anos. Agora, aguardamos a decisão do Supremo Tribunal Federal, dignificando o sonho de igualdade sonhado e almejado por tantos que anseiam por um projeto de nação para todos. Viva Zumbi dos Palmares. Viva o orgulho e a consciência de ser negro!

TITO VALLE é advogado e ex-vereador em Londrina.




'República dos pés-vermelhos'
WALMOR MACARINI


A lama vermelha e grudenta prendia à terra os que chegavam, impedindo que pudessem voltar. Mesmo que alguém quisesse libertar-se dela não mais conseguia. A terra tingiu-lhes de vermelho os pés, porque era a marca para que ninguém se dispersasse. Começava aí a nascer em Londrina a "República dos pés-vermelhos". Uma civilização predestinada a aqui aportar, derrubar a mata até onde necessário e plantar, porque era fértil a terra, e construir a cidade. Os machados expeliam o aroma das árvores derrubadas e as onças espreitavam pelos cantos da mata, em prudente distância.
Aquele troar de machados e foices ecoou floresta afora, atravessou as fronteiras do Estado e foi ouvido em São Paulo, nas Minas Gerais, na Europa e até no Japão. E desses pontos começaram a chegar grandes levas de pessoas que vinham ver que barulho era aquele, com araras grasnando e onças correndo. E aqueles mais que iam chegando pegaram também em machados, foices e facões, e então o barulho foi ainda mais ensurdecedor. Mais gente ouviu e mais gente veio. De todos os cantos da mata foram apontando cabeças.
Já havia duas mil, e foi então que um gaiato fincou à entrada da aldeia aquela placa: "Iguais a você já tem aqui dois mil. Volte". Quem não sabia ler foi entrando, sem entender, e quem leu e entendeu deu de ombros. Quando se viu, os que haviam chegado já somavam dois mil vezes dois mil. Foi-lhes revelado que aqui dinheiro dava em árvores, e que essa árvore era verde e os frutos vermelhos como o solo. E não era mentira o que haviam propagandeado, porque as árvores ocuparam o lugar das perobas e aqueles grãos esparramaram-se pelas tulhas e encheram os armazéns.
A esse povoado deram o nome de Londrina, gentílico de Londres, porque foi de lá que vieram os loteadores. Yes! A nação dos pés-vermelhos começava a consolidar o seu império. Os que chegaram primeiro abriram as picadas na mata, espantaram as onças e deixaram o lugar muito bom de se morar. Nesses 80 anos da agora metrópole, a nossa gratidão a esses intrépidos desbravadores. Eles pisaram este solo e o fizeram sagrado.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina.


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