"Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais." Essa é a sentença urgenciada por Allen Frances, médico psiquiatra e catedrático emérito da Universidade Duke, no dia 27 de setembro de 2014 para o jornal espanhol "El País". Frances dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), conhecido popularmente como a "bíblia" dos psiquiatras. A principal referência acadêmica para a psiquiatria, que é revisada periodicamente para ter os avanços científicos incluídos em suas páginas, se expõe agora com uma grande rachadura.
O lançamento de sua quinta versão, o DSM 5º, tem gerado polêmicas pautadas na ampliação de síndromes e patologias e na inflação de diagnósticos psiquiátricos. A ironia presente na lista de patologias (depressão, hiperatividade, deficit de atenção, síndrome de Asperger e muitas outras) está na situação de que qualquer um pode se reconhecer em algumas delas.
Segundo Frances, criou-se um sistema de diagnóstico que transforma problemas normais da vida em transtornos mentais. Não é necessário estar na área da saúde para perceber o aumento de prescrições e usos de psicofármacos pelas pessoas. É tão evidente que este meu escrito corre o risco de se tornar apenas um eco desse movimento. Contudo, a delação de Frances sobre o pacto diabólico que a medicina psiquiátrica tem feito com a indústria farmacêutica é a revelação do impulso desenfreado que há nessa medicalização da vida. Às empresas farmacêuticas interessa a introdução de novas entidades patológicas.
No DSM 4º, apenas dois dos noventa e quatro transtornos mentais sugeridos foram acrescentados, porém, Frances reconhece não terem conseguido frear o impulso agressivo das empresas farmacêuticas. Não souberam se antecipar "ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução".
Obviamente que quanto mais doenças forem diagnosticadas mais remédios serão vendidos. Acontece que o remédio parece estar surgindo antes da doença, como num teatro de quinta categoria onde o ator cai antes do tiro. Com a publicidade de seus produtos, os laboratórios enganam o público fazendo crer que os problemas da vida se resolvem com medicamentos. A subserviência dos médicos não contempla todo o problema. Autoridades sanitárias mediaram para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos, contudo os últimos podem influenciar o médico gerando demanda nos pacientes.
A questão se torna maior ao se notar que o espírito de nossa época valoriza a distração, a frivolidade, a fuga e a saída conveniente de problemas psicológicos. Porém, um enlutado não enterra um amor em uma semana. Em alguns casos a medicação é necessária, mas não sempre. Quando se entra nessa lógica que interpreta a dor e a tristeza como deficit de alguns neurotransmissores, rebaixando a vida, o emocional e o "espírito" corre-se o risco de legitimar a vitória de Pirro: um remédio pior que a doença.
Precisamos saber se são as pessoas que estão mais doentes precisando ser medicadas em larga escala ou se é a psiquiatria que está para ser diagnosticada com: a síndrome de Simão Bacamarte.

FÁBIO BRINHOLLI é psicanalista em Londrina e mestrando em Epistemologia e Práxis em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá

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