ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
José Rafael Solano Durán 
Faço-me esta pergunta desde um tempo atrás, quando comecei a perceber que minha vinda ao mundo não era muito bem acolhida. Ouço muitos cochichando contra mim, muitos se inspiram na palavra direito, poucos assumem seu dever. Dizem que sou produto da violência, do descaso e da irresponsabilidade, que o corpo não é meu é deles, dela, que não tenho cérebro ou que pareço insustentável. Que minha viabilidade é nula e que os outros não vão ter força para me ajudarem.
Dizem que não sou pessoa, que não tenho nem vida jurídica, que as células, são formas e que, na verdade, ainda nem humano poderia ser chamado. Criticam-me porque venho na hora inoportuna, porque causaria escândalo, porque muitos se incomodariam.
Ouço alguns que, com certo sentimento, poderiam mudar seu pensamento, mas vejo a solidão e negação de quem me leva dentro. Por que não posso nascer, me pergunto constantemente. Meu nome nem conheço, sou alguém é isso que sinto, e não posso nem dizê-lo.
Alguns se manifestam contra, outros a favor, gritam nas ruas e nos canais da televisão, nas rádios e na internet, nas esquinas e vielas, nas avenidas e trevos, nos avisos e outdoors. Por que não posso nascer, é a pergunta que me faço, e que não me posso responder.
A vida é vida, isso é o único que compreendo. Para mim, não existem os conceitos, existe o palpitar, o sentir e alimentar existe a consciência de cada órgão que se move, e desenvolve, existe a certeza de que alguém me fez.
Não tenho ainda os parâmetros que permitam decidir, mas se assim pudesse fazê-lo, não decidiria só por mim. Qualquer decisão envolve a vida do meu próximo, daquela que me leva, de quem está perto de mim.
Nesses dias sem percebê-lo, alguém olhou para mim, fez um sorriso uma caricia, e até me viu correndo e falando, cantando, dançando e tocando um tamborim.
Sei que não poderei expressar tudo isso que sinto, sei também que muitos antes de mim, assim o quiseram fazer. Sei que a vida não é fácil, sei também que viver é um verdadeiro ir e vir.
Sou ciente das minhas mazelas, do que significa me ajudar a sentir. É só isso que eu quero que não se façam insensíveis, aqueles que podem ouvir! Não se façam indiferentes aqueles que são chamados a decidir, não se façam de orgulhosos aqueles que podem arguir.
Minha vida tem sentido, minha vida como a vida de todos tem valor, sou um nascituro e isso que eu quero, que desejo e levo dentro, um grito que não é violento é humano. É isso aí, sou humano, sou criatura e foi Deus quem me fez, junto dEle reconheço a que bondade é sem fim, mas vir ao mundo é uma graça; e por isso que vos peço: por favor, me deixem vir!
Só lhes peço um pouco de tempo de paciência e compreensão. Tudo tem o seu tempo e, com ternura e boa razão, compreenderemos como é bom acreditar nos que vêm e povoaram essa terra que é só um dom! Bem-vindos amados nascituros e nascituras.
JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é sacerdote da Arquidiocese de Londrina
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