A indústria de multas no Brasil é uma máquina gigantesca. Praticamente todos os dias vejo notícias de mais radares sendo instalados por aí. O problema maior está quando o infrator recebe a multa sem ser culpado. Não, não estou falando do excesso de velocidade ou das falhas que cometemos no trânsito ou, ainda, muitas vezes da imprudência de alguns motoristas ao volante. Li uma notícia dizendo que, somente no ano passado, a fiscalização encontrou 891 problemas no pavimento da rodovia que liga o Paraná a Santa Catarina, gerando 84 autos de infração para a concessionária que administra a rodovia.
As falhas foram achadas na BR-116, entre Curitiba e Lages (SC). O que me deixa mais boquiaberto é que esta rodovia é pedagiada, portanto, não poderia haver estas falhas e erros. E não sou eu quem está fazendo estas constatações, é a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Cada vez que o órgão regulador constata estes erros, a concessionária da rodovia é penalizada, e os autos em questão já somam R$ 1,08 milhão.
O que está acontecendo é que sobram falhas e buracos, e quem paga a conta é o contribuinte que, além de pagar impostos como IPVA, seguro obrigatório e licenciamento, ainda tem que pagar pedágios para rodar. Não bastando, corre o risco de ser multado indevidamente por um erro da rodovia ou, ainda pior, ter seu veículo danificado ou sofrer um grave acidente.
As condições precárias de muitas estradas brasileiras já não são novidade para ninguém, muito menos para quem trabalha e vive nelas todos os dias. Os nossos motoristas, por exemplo, sofrem diariamente pelos danos e más condições de conservação das rodovias. São buracos, pneus furados, várias vias de mão única em serras, deslizamentos e uma série de outros malefícios. Isso sem contar a falta de segurança a que eles são expostos diariamente. Casos de roubos de cargas são muito comuns, o que faz com que os profissionais muitas vezes corram risco de morte exercendo a sua profissão.
O curioso é que, quando o governo federal começou a segunda fase do programa de concessão de rodovias, deram um prazo de cinco anos para deixar as coisas como deveriam ficar: estradas em ótimas condições, bem sinalizadas, com centros de apoio aos motoristas, e tudo o que está previsto em contrato e que as concessionárias de rodovias pedagiadas devem oferecer aos usuários. Passados sete anos, não é bem este cenário que a gente vê. Nesse período, as fiscalizações identificaram 6,2 mil infrações.
Além de tudo isso, várias obras foram adiadas. O próprio governo também falhou, deixou de fiscalizar diretamente e incisivamente as concessionárias, deixou as obras atrasarem e não fez a manutenção correta das estradas quando isso era uma obrigação do Estado. Mas o que podemos fazer para melhorar? Aí é que está, nós do setor estamos tentando fazer a nossa parte. Procuramos seguir as normas estabelecidas nas estradas, damos treinamento constante ao motoristas, cursos, reciclagem, seguir o que prevê a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a Lei 12.619, a lei do descanso. Resta saber se, em seu próximo mandato, nossos governantes cumprirão as promessas de campanha e farão a parte que lhes cabe. Vamos cobrar.

GILBERTO CANTÚ é presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do Paraná (Setcepar)

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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