O tempo é o primeiro presente divino que recebemos quando aqui chegamos, mas poucos percebem que é um mimo delicado e caprichoso. E por incrível que pareça, ele tem vida própria, independente, autônoma e é, irremediavelmente, individualista. Ele aceita ser repartido, partilhado, dividido, mas não emprestado. É determinado em se fazer sentir a cada amanhecer, exigente ao nos mostrar que passa implacável e firme, sem que possamos perceber, caso nos deixemos levar por nossa arrogância ou por nossas fragilidades.

O mais interessante é que, talvez, Deus nos tenha dado o tempo, só para nos ensinar a viver. E como um professor severo e carinhoso ele vai ensinando a amar, a sorrir, a expressar sentimentos, a perceber as emoções.

Numa sabedoria plena nos ensina a esperar, a confiar, a perdoar, a acolher e a liderar. Com humildade austera nos faz curvar a cabeça, dobrar os joelhos da prepotência diante de suas decisões.
E pleno de generosidade escolhe a infância como a sua mais sagrada sala de aula. Nunca ninguém vai aprender tanto em outro momento, pois a infância é o tempo de se encantar!
Ahh! A infância! Paradoxalmente não respeita o senhor tempo e de um jeito ou de outro, se faz perpetuar até que possamos nos despedir da vida, porque a infância sonha grande, ama grande, sente grande, imagina grande e, com grandeza, espalha sua inocência pelas brincadeiras, pelos porquês, pelos amigos que se multiplicam em minutos, pelas histórias que saltitam, como pipoca, na imaginação.
Na infância cabem amigos de todas as etnias, as possibilidades, as potencialidades, todos os heróis ficam confortavelmente instalados e sempre vencem o mal.
Há generosidade na infância; há bondade em todos os olhares; há magia nos sorrisos, enigmas nas respostas, força nos desejos e súplica por acolhimento e orientação. Afinal... ela, a infância, acabou de receber o tempo como se recebe um caderno onde se vai escrever as próprias escolhas.
É, então, tempo de um adulto ensinar como o mundo funciona. Mas para que isso aconteça é preciso voltar à própria infância e sentir a ausência, ou a presença, do toque do amor incondicional que se retratava na atenção ao que se tinha a dizer; que milagrosamente secava lágrimas e curava desde joelhos ralados, dores de cabeça, resfriados crônicos até a saudade do amigo que se mudou do bairro.
É preciso sentir o olhar de reprovação que nos colocava no caminho certo, bem como aquele toque de orgulho por nossas conquistas. Quantos nãos nos pouparam do sofrimento e nos fizeram crescer! Quantos "sim, você é capaz" nos impulsionaram a seguir em frente, porque é isso que criança faz....segue em frente acreditando que " não há lugar marcado no futuro" (Cortella, 2013).
É tempo de ser criança para encontrar a força, a alegria, a coragem para seguir em frente e aprender a cuidar da infância.

ZULEIKA TOLEDO é pedagoga em Londrina com mestrado em Educação - Desenvolvimento da Sociomoralidade Infantil

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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