A motivação para escrever este artigo veio após ler a reportagem "Jogos propagam ideia de escolas mais esportivas" (Entrevista, 7/9), na qual foi entrevistado o gerente-geral de Juventude e Infraestrutura do COB, Edgar Hubner. Considero que essa ideia de escolas mais esportivas tem retornado atualmente por desejo político. Uma vez que essa tendência esportivista foi introduzida no Brasil pós-1964 e perdurou com maior ênfase até 1985. Desse modo, podemos inferir que a educação física estaria novamente retornando à sociedade, como instrumento a favor do Estado que, como indica na reportagem, está inspirado em potências olímpicas como Estados Unidos, China, Austrália, Reino Unido e Alemanha para o Brasil tornar-se também uma potência olímpica, desejo esse não muito diferente de anos atrás.
Ora, quanta hipocrisia do nosso país, subdesenvolvido, querendo ser o que está longe de ser, ser o que os outros são, desenvolvidos. E sem priorizar a educação e a humanização das pessoas. Essa condição de afirmar o que não é, ficou constatada na Copa do Mundo de futebol que aconteceu esse ano no Brasil com a seleção brasileira.
O que a formação de atletas tem por trás da formação? Quais são os métodos utilizados? Não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que essa via na escola irá além da seleção dos melhores, da repetição e reprodução de técnicas para conseguir jogar, do fazer e fazer sem pensar, do cumprir ordens mecanicamente dos técnicos, da competitividade, da exclusão.
Agora, pensamos, é o que queremos nas escolas de ensino regular? A escola não deveria formar para a autonomia? Para a tomada de decisão? Qual a função da educação física na escola?
Eis aí os procedimentos para formação de atletas e a "descoberta de talentos". Procedimentos esses que estão muito distantes da formação humana e da formação do talento esportivo que, do meu ponto de vista, não nasce pronto. O talento esportivo precisa ser construído, assim como a humanização das pessoas.
O desejo de desenvolvimento econômico e político de nosso país são inspirados em ideias capitalistas de outros países, que comandam hegemonicamente a economia mundial e, essa via, prioriza a produção para exportação e a competitividade a qualquer custo. Assim, essa condição influencia os outros setores, não sendo diferente ao setor esportivo, principalmente, o esporte telespetáculo comandado cada vez mais pelo ramo empresarial, a mídia e a política.
O que essa educação para o comando mediante o treinamento especializado, com fins políticos, oportuniza? A escola não deveria priorizar o esporte educação-participação?
Não sou contra a prática esportiva na escola, porém acredito que o esporte deva-se guiar por concepções pedagógicas para a construção da autonomia, a construção da coletividade, do querer bem a si e aos outros, para a cooperação. Fazendo isso, a escola não estaria formando atletas para o estrelato, mas formando pessoas para a vida, pessoas mais humanas, pessoas com potencial para decidir o que é melhor para si.
Por fim, o entrevistado coloca que esse projeto de formação de atletas na escola ajudaria a educação física aumentar sua carga horária. Fica evidente que esse aumento na carga horária da disciplina seria para o treinamento, para uma prática seletiva, na qual é dada prioridade apenas àqueles que têm habilidade para jogar.
É necessário que a educação física priorize a educação do corpo para a autonomia, não esquecendo que o ser é corpo pensante e como corpo pensante pode tomar consciência de suas ações.

NATHÁLIA APARECIDA DE OLIVEIRA GOMES é tutora do curso de Licenciatura em Educação Física na Unopar e estudante especial do mestrado em Educação na UEL

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup