Após as inúmeras manifestações contrárias ao discurso homofóbico do candidato à Presidência Levy Fidelix - em debate realizado na TV Record, na última semana da corrida eleitoral - houve outras muitas manifestações em defesa do direito do candidato de dizer o que pensa sob pena de comprometer a liberdade de expressão e do livre pensamento. Alguns dos que se identificam com as ideias de Levy afirmaram que a fala do candidato não poderia ser confundida com incitação do ódio e da violência.
O lugar comum do que se ouvia e lia era "o fato de eu não concordar com o estilo de vida dos gays não significa que eu os odeie". Não discuto se Levy tem ou não direito de dizer as imbecilidades que disse em um canal de TV. O que incomoda é o "eu apenas não concordo com o estilo de vida". É equivalente a dizer "eu não concordo com a cor da sua pele" ou "eu não concordo que você seja heterossexual".
É importante ressaltar que a sexualidade não é um "estilo". Tenho certeza que boa parte dos gays em algum momento da vida teve o desejo de ser heterossexual. Alguns até vivem como hetero, escondidos atrás de casamentos de fachada ou de um falso celibato. Levam uma vida dupla - esquizofrênica. Logo, não se trata de uma escolha. Ninguém "vira" gay porque está "super in"; porque viu um casal de homens no cinema ou na novela.
O "eu apenas não concordo" também não é honesto porque se você "apenas não concorda" você não interdita a vida do outro, você não impede que outras pessoas formem a família que faz sentido para elas.
Se de fato essas pessoas "apenas não concordassem" com o "estilo de vida" dos gays não haveria tanto embate. A maioria deles só quer os mesmos direitos, que o Estado (sustentado também com os impostos da comunidade LGBT) garante aos heterossexuais. Poucos pretendem casar na Igreja ou criar seus filhos em instituições que não reconhecem um arranjo familiar diferente do que é formado por homem, mulher e filhos.
Cinismo, desonestidade e hipocrisia permeiam todo discurso homofóbico. Levy Fidelix é o exemplo clássico. Apresenta-se como defensor da família cristã. Seria mais honesto se apresentar como o defensor da exclusividade da família cristã. A família tradicional não está ameaçada e a opressão, na verdade, recai sobre quem não se reconhece nesse modelo e, por consequência, não tem a própria família reconhecida pelo Estado.
Em sua fala no debate da TV Record, Levy afirmou que "dois iguais não fazem filho", sugerindo que as pessoas fazem sexo para reprodução, e fingindo ignorar que o sexo - para homo e heterossexuais - tem muito mais a ver com prazer e vida afetiva. O candidato disse ainda que o "aparelho excretor não reproduz" sugerindo também que o sexo anal é uma prática exclusivamente gay, o que - a julgar pelo que se lê nas revistas direcionadas a mulheres e homens heterossexuais - passa longe da verdade.
Se esperar uma sociedade que valoriza – e não só tolera com sofrimento – a diferença é pedir demais, gostaria que o próximo presidente se empenhasse para tratar os cidadãos brasileiros com isonomia, sem sonegar direitos com base na orientação sexual. A partir daí, simpatizantes de Levy Fidelix poderiam dizer – sem mentir – que eles apenas não concordam.

VINÍCIUS BERSI é jornalista em Londrina

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