ESPAÇO ABERTO
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segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Eliane Tomiasi Paulino 
Recentemente, uma pesquisa do Datafolha revelou que a segurança é a maior preocupação dos brasileiros afora aquilo em que somos muito vulneráveis: a saúde. Ainda que isso pareça evidenciar o óbvio, dada a ameaça recorrente a nossa integridade, pouco se fala sobre causas estruturais da violência, não raro tratada como fenômeno urbano.
Prova disso são os dados do último Mapa da violência, elaborado com base em todos os homicídios ocorridos em 2012. O Rio de Janeiro, que se imagina ser um dos lugares mais perigosos, é o paraíso, quando comparado a municípios da zona de expansão da fronteira agrícola, onde a densidade populacional é baixa e as cidades são, em regra, pequenas. No Mato Grosso do Sul, há 31 municípios mais violentos que o Rio de Janeiro, no Mato Grosso 22, no Tocantins 9. No Pará, em 45,8% dos municípios se mata proporcionalmente mais, no Acre em 53% deles e, em Roraima, em 100% dos incluídos no Mapa da Violência.
Aqui o padrão societário favorece o massacre difuso e sem paralelo nos países onde a guerra é endêmica. De acordo com a ONU, a taxa de homicídios no Brasil em 2012 foi quatro vezes maior do que a do Afeganistão, entre os Palestinos, a cada pessoa assassinada, dentre número idêntico de brasileiros foram 3,4.
O modelo de sociedade desigual, que teima em não reconhecer como legítimos os direitos universais mínimos e inalienáveis, resulta nisso. É no desprezo a eles que florescem o autoritarismo e a prepotência cujo ápice é o sacrifício capital.
Vivemos uma democracia frágil que, para além do exercício representativo que em breve nos levará às urnas, carece do princípio de que uma sociedade de direitos requer deveres em igual medida. Democracia não combina com a barbárie que emana das armas ou do poder econômico. Isso deveria ter sucumbido com o regime colonial, quando a economia açucareira justificou a invasão das terras indígenas e o genocídio para logo adiante naturalizar a escravidão africana e não menor crime humanitário.
A história e a geografia não o puderam olvidar: os 25 países mais violentos do mundo estão na África e na América Latina, sendo o Brasil o 18º deles. O elo de ligação entre ambos é a funcionalidade da lógica agroexportadora, que enriquece a uns poucos e quase tudo lhes pode prover, exceto segurança para viver como o fazem os cidadãos comuns, diuturnamente lançados à cova dos leões.
O paradoxo é que não há indícios de círculo virtuoso na lógica agroexportadora. Segundo o IBGE, no Brasil os estabelecimentos com até 10 hectares faturaram, em média, R$ 1.995,18 por hectare/ano, enquanto os estabelecimentos com mais de 1.000 hectares angariaram apenas R$ 296,58 em igual porção de terra. Todavia, os primeiros correspondem a 52,6% dos estabelecimentos brasileiros que dividem entre si 1,2% das terras agricultáveis, dispondo de 2,9 ha. de área média. Há aí um problema a ser enfrentado, caso o país busque aumento da produção e desenvolvimento, porque é a agricultura de pequena escala que gera simultaneamente renda no campo e dinamismo econômico nas pequenas cidades.
Nesses tempos em que os ruralistas, maciçamente representados no parlamento, bradam por segurança jurídica, prescrevendo mudanças restritivas aos direitos indígenas e ao ambiente sadio e equilibrado a que todos nós estamos constitucionalmente assegurados, cabe um levante cidadão nas urnas, em nome da democracia como sociedade de direitos e não de privilégios que emanam do poder econômico que, não raro, nutre o poder político. Felizmente, no campo abunda agricultores incontestavelmente eficientes que, ao invés da mão invisível do Estado, apostam no trabalho, e nisso está a brecha para a construção da sociedade segura que todos almejamos.
ELIANE TOMIASI PAULINO é doutora em Geografia e professora da Universidade Estadual de Londrina
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