ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Nelson Ávila Simão 
O exercício do poder exige um sólido alicerce humano e também cultural. Entretanto, estamos enjoados e cansados. A esperança sofre um ataque de insatisfação, as palavras tornam-se repetitivas, o termo "indignação" torna-se fútil e, como tudo o que é barato, perde o valor verdadeiro.
Deveriam ter uma grande dose de humildade, experiência, realismo e visão de mundo para que se possam pronunciar de boca limpa termos como "ética", principalmente na política.
O barco afunda: alguns ratos já foram lançados na água, outros se agarram ao que sobrou com patinhas, dentes e longo rabo. Vale ranger os dentes? Adianta se expor ou não se esgotou o velho tema da renovação e da busca da honradez?
Curvam-se ao peso da omissão, aqueles que foram sinceros: podíamos ignorar tudo isso? Revendo conceitos de uma vida inteira, estão os honrados, questionando-se dolorosamente. Os cínicos usam da velha arrogância ou fingem nada saber, e os covardes se dissimulam sob desculpas escandalosas, como pode-se notar nas esferas federal e estadual.
O Brasil, o Paraná e os demais Estados gemem nas dores de câncer de uma democracia tanto infestada de corrupção. A turma dos panos quentes acorre solícita, porém o esparadrapo não resolve doença tão grave e com metástase. Recentemente, a ferida explodiu e tantos são os tumores e tantos são os atingidos que quase não conseguimos respirar.
Nós que vivemos do suor do nosso trabalho, que pagamos as contas com certas dificuldades e os impostos com indignação, que estamos quase paralisados por juros absurdos, que acreditamos no nosso país e na nossa cidade, somos plenamente forçados a desacreditar de grande parte dos que os comandam. Estamos desmoralizados pelas mentiras do bando que negociava a vida do nosso país e também do nosso estado.
Como se fossem objetos quaisquer, prevaricava sem se dar conta, e agora experimenta todas as máscaras disponíveis enquanto aponta o dedo para os outros: "Ele também urinou na calça, ele é pior que eu". Procura-se ainda ocultar o responsável: quem esteve por trás de tudo isso? Que pessoa, grupo, entidade manejava os cartéis, enganava e intimidava todo o mundo e, covardemente, não mostra o rosto? Quem assassinou covardemente a nossa confiança? Que surpresa perversa nos aguarda a cada dia?
O fio do novelo se desenrola cada vez mais longo, mais complicado e sombrio, mesmo para quem gostaria de fechar os olhos e morrer negando a traição.
Quem sabe a verdade enfrentada de peito aberto nos devolva a confiança, e no nosso espírito habite o nosso país e também o nosso estado, com narizes menos compridos, memórias menos lesadas, bandidagem presa ou expulsa a nossa esperança ainda viva?
É possível que o otimismo e a esperança ainda tenham espaço por aqui, e a nossa pátria seja mesmo respeitada como se deve e que haverá de renascer mais forte desse nicho de vergonhas.
NELSON ÁVILA SIMÃO é professor, mestre em ensino de Ciências e Educação Matemática em Londrina
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