ESPAÇO ABERTO
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terça-feira, 23 de setembro de 2014
Leandro Cesar Leocádio 
Como muitos santistas da minha geração, passei minha infância e adolescência sem ter muito o que comemorar pois, enquanto os times que boa parte de meus amigos torciam ganhavam títulos importantes, tive que esperar a entrada do novo milênio para, enfim, ver o Santos sagrar-se campeão. Como bom torcedor que se preza, vivi momentos emocionantes nessa trajetória, que passaram pela tristeza da derrota, erro da arbitragem, gol nos segundos finais do jogo, e também pela euforia extrema de gritar campeão de títulos regionais, nacionais e até continental.
Mas de todos os momentos emocionantes ao longo dessa trajetória como torcedor, nada, até o momento, se compara ao jogo entre Grêmio e Santos que aconteceu no último dia 18/9. A partida em si foi triste de se assistir, mas a atitude do goleiro Aranha foi algo digno de receber um gol de placa. Isso porque, enquanto a torcida gremista entoava sonoros coros de vaias toda vez que Aranha tocava na bola, embalados pelo ex-técnico da seleção brasileira que, dias antes da partida, teria insinuado que nossas autoridades teriam caído na "armadinha" tramada pelo goleiro, este realizou belas defesas, tanto é que saiu de campo como melhor jogador (segundo, é claro, a crônica esportiva).
Agora, o mérito maior não está no fato de ter evitado gols da equipe adversária, mas sim em não se calar diante das injúrias e palavras discriminatórias sofridas na partida anterior em que enfrentou o Grêmio, quando algumas pessoas o chamaram não só de macaco, como chegaram ao ponto de imitar um. Nesse último jogo, Aranha foi recebido não como um homem que exigia que seus direitos fossem respeitados, mas sim como uma pessoa que gosta mesmo é de uma boa confusão. Infelizmente, uma parte da torcida gremista perdeu a grande oportunidade de combater essa triste mentalidade preconceituosa impregnada em nossa sociedade. E, como se não bastasse, ao final do jogo, Aranha ainda teve que explicar sua indignação em relação às vaias e ofensas que, conforme destacou, soavam de forma diferente das outras tantas sofridas por ele.
Essa manifestação de cunho preconceituoso, empreendida por alguns torcedores, é um de tantos exemplos para demonstrar que os quase quatrocentos anos de exploração da comunidade negra no Brasil deixaram marcas difíceis de apagar do imaginário de boa parte de nossa população, por mais que tenhamos abolido a escravidão há cerca de cento e trinta anos. Pensando dessa maneira, a atitude colocada em prática pelo cidadão Mário Lúcio Duarte Costa, nome de batismo do goleiro santista, deve ser muito enaltecida.
Como professor de História, fico aqui imaginando que, daqui a alguns anos, esse acontecimento pode muito bem ilustrar livros didáticos retratando um momento em que nossa sociedade procurou combater atitudes vinculadas a um passado escravocrata que, infelizmente, ainda encontravam-se impregnadas na mentalidade de boa parte de nossa população.
Quando isso acontecer e você estiver estudando História com seus netos, o que você dirá a eles: que compactou da ira do goleiro Aranha, indignando-se com os xingamentos e vaias feitas a um homem que estava ali para fazer valer seus direitos enquanto cidadão, ou dirá que quem estava certo era o Felipão, dizendo que nossa sociedade caiu na "esparrela", ou seja, na artimanha de mais um que queria se dar bem a custa dos outros? Pensar em questionamentos como esse não é fácil, mas necessário se quisermos deixar para o futuro uma imagem de uma sociedade que procurou combater fortemente a discriminação.
LEANDRO CESAR LEOCÁDIO é professor de História e mestrando em História Social pela Universidade Estadual de Londrina
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