ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de setembro de 2014
Almir Rodrigues Sudan 
Uma das coisas mais tristes que já ouvi foi quando, de frente para o pórtico de entrada do campo de concentração de Auschwitz, um senhor judeu me disse que ali estava para conhecer o lugar onde seus antepassados morreram e onde Deus derramou algumas de suas lágrimas.
Incrível, mas atravessei o pórtico e entrei na área "executiva" do campo refletindo exatamente sobre isso, e pior, lembrando que Deus, ao longo dos séculos, de forma quase recorrente tem-se derramado em lágrimas em razão da insanidade dos atos perpetrados pelos homens.
Desde bem jovem ouço contos de tragédias envolvendo a humanidade, e nesse contexto sempre recorrem a fatos envolvendo os judeus, numa leitura que parece única de subjugação apenas deles. É verdade que o povo judeu sempre foi segregado e subjugado, mas ele não é o único, tampouco, mais vergado ou avassalado do que outros.
Por mais surreal que seja Auschwitz, o local, à primeira vista não parece um lugar tenebroso. São prédios de dois andares construídos de tijolos à vista, de forma geométrica e incrivelmente harmoniosa. Antes de se tornar um campo de concentração para trabalhos forçados, no local funcionou uma academia militar do exército polonês. Mas não se iludam com isso por que se trata de um sepulcro caiado: bonito por fora, podre por dentro.
Para muitos, aquele lugar estampa o retrato mais vergonhoso do conflito insano que envolve relações raciais e étnicas da humanidade, além, é claro, de representar o suprassumo mais clássico da ignomínia, que jamais pode ser esquecido. No entanto, não está em causa, aqui, apenas Auschwitz por que as lágrimas de Deus continuaram caindo, e pior, acontecimentos atuais trazem novos panoramas e configurações da insanidade humana.
A capacidade do homem de segregar, vigiar e matar é como a Fênix. Renasce sempre na mente e na capacidade absurda de liderança de algum débil no mundo. O desprezo pelo semelhante se renova com tal magnitude, frequência, intensidade e perplexidade que, pasmem-se, passou-se a ser recorrente.
Engana-se quem pensa que genocídio é coisa pós-segunda guerra mundial. Muito antes a prática insana e cruel de extermínio humano existiu. Ao longo dos séculos isso vem ocorrendo de forma contínua. Em 1904, os alemães comandados por Von Brotha perpetraram o genocídio de 200 mil hererós e mamaquas, na Namíbia (50% a 70% da população). Em 1915 houve o genocídio dos armênios e dos assírios pelo Império Otomano, com 2,25 milhão de mortos; entre 1932/33, no evento conhecido como Holodomor (morte pela fome), a Ucrânia teve exterminados pelos soviéticos (diga-se, Stálin), entre 2,6 milhões e 5 milhões de pessoas. Entre 1933/1945, mesmo se distanciando do debate sobre o número exato de mortos, e sabendo-se que a morte de 6 milhões de judeus durante o regime nazista carece de comprovação, Hitler ordenou o extermínio de milhares ou milhões de judeus, ciganos, gays, negros, etc. Em Bangladesh, em 1971, 1,5 milhão de mortos. No Camboja, Pol Pot, líder do Khmer Vermelho exterminou entre 1975/79 cerca de 2 milhões de cambojanos. Em Ruanda, 1994, 900 mil tutsis foram assassinados; em 1995, no massacre de Srebrenica (Servia/Bósnia), outros milhares de muçulmanos mortos; Em 1999, no Kosovo, mais milhares Antes disso, ocorreu a dizimação de milhões de índios em toda a extensão do continente americano, desde os Estados Unidos até a Argentina. Não se pode esquecer-se do vergonhoso ingresso dos Estados Unidos na guerra do Vietnã, quando encenaram o inexistente ataque de barcos vietnamitas no Golfo de Tonkim contra um destróier americano, de cuja ação sucumbiram-se mais de 1 milhão de vietnamitas.
Estes "événements" traduzem, sem dúvida, a tristeza de Deus e suas lágrimas caem como uma chuva ácida sobre nós, não para matar, mas para nos salpicar e fazer com que sejamos diferentes, exatamente no sentido oposto à indiferença, ou seja, temos que pensar no próximo seja ele de etnia ou status social diferente, pois, afinal, somos filhos de Deus, e filhos não podem fazer o pai derramar-se em lágrimas.
ALMIR RODRIGUES SUDAN é advogado em Londrina
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