"Para a Europa, constituiríamos aí um pedaço de fortaleza contra a Ásia, seríamos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie." O vaticínio é de Theodor Herzl, fundador do sionismo, e foi registrado em seu livro "O Estado Judeu", obra seminal do nacionalismo judaico, editado em 1896.
A frase reflete seu tempo. Nascido no âmbito de uma elite de pensadores judeus da Europa central, o sionismo bebe nas mesmas fontes que a ideologia colonialista europeia. Caracteriza-se, portanto, por uma visão de superioridade do homem europeu frente aos demais povos. Seriam estes inferiores, incapazes, incivilizados, quase sub-humanos. Aos europeus, a missão de civilizá-los. Como? Mediante a invasão, ocupação e colonização de territórios.
O sionismo nasce, portanto, eivado dessa mesma visão racista, que via no outro não europeu um ser carente das características intrínsecas do ser humano completo, quais sejam, a curiosidade, a razão, a capacidade de empresa, a diligência.
No caso do sionismo, este outro é o camponês árabe que habitava o território da Palestina desde tempos imemoriais, o filisteu bíblico, o filastin, o palestino. O bárbaro a ser mantido fora das fronteiras, a ser atacado para não conspurcar a pureza dos ideais europeus de civilização.
A estratégia da compra de terras aos camponeses palestinos para criar espaço vital à colonização judaica não funciona a contento e, a partir das décadas de 1920 e 1930, células terroristas judaicas – como o Irgun, Lehi, Palmach, Haganah e Gangue Stern – surgem. Atacam aldeias palestinas, assassinam a metralhadoras e a granada mulheres, idosos e crianças. Criam um clima de pavor nas aldeias árabes, que se esvaziam, abrindo ainda mais espaço à colonização sionista.
Temerosos pelo que ocorria em sua terra, os palestinos que não fogem da sanha terrorista se revoltam. Em 1939 fazem a primeira greve geral. Os sionistas mantêm a prática de ataques a civis. Em 22 de julho de 1946, o Irgun explode o Hotel King David, matando 91 pessoas. Em 9 de abril de 1948, comandos do Irgun e Lehi invadem e massacram a população da aldeia de Deir Yassin, até hoje símbolo do terrorismo judaico na Palestina.
Entre 1930 e 1950, centenas de aldeias palestinas são atacadas e suas populações mortas ou expulsas, abrindo espaço para o "lebensraum" judaico na região.
Israel, cuja edificação se assenta na crença da superioridade racial, na invasão e colonização de território ocupado militarmente e na ação de grupos terroristas, adotou o terrorismo como política de Estado.
Zeev Jabotinski dá as linhas gerais dessa política, quando preconiza a construção de uma "muralha de ferro", alta e forte o suficiente para manter afastados os árabes, enquanto se dá a consolidação do estado judeu. Por muralha de ferro entenda-se a criação de um poder militar implacável.
Para que possamos entender a tragédia que se abate sobre os palestinos de Gaza atualmente, é preciso conhecer e entender esta gênese do estado judeu.
Imputar aos palestinos os mais de dois mil mortos – a grande maioria civis – nos ataques recentes de Israel – grande parte deles crianças e mulheres – é, no mínimo, desonestidade intelectual.
A resistência ao desrespeito sistemático dos direitos palestinos é consequência da invasão, ocupação e colonização da Palestina. Não é sua causa.

OMAR NASSER FILHO é jornalista, economista e mestre em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

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