Todos sabemos que nenhuma reforma política sairá este ano. Ninguém, dentro do sistema, teve ou terá coragem de encetar qualquer mudança, que afete as regras de um jogo que até agora se mostrou cada vez mais caduco e nefasto à nação. Ninguém a incluirá em programa eleitoral. As vozes de junho de 2013, que gritaram nas ruas por mudanças profundas, poderão surtir algum efeito nas urnas de outubro, mas nem isso é seguro. Os frequentes ensaios de grandes manifestações ao longo deste ano não foram suficientes para incluir na agenda política os assuntos reclamados. Nada de novo acontecerá além de uma campanha eleitoral previsível e um resultado final que se encaixe no script. Digo com isto, que caminhamos para mais um pleito em que as "novidades" são as eternas promessas de mais educação, saúde e segurança para todos sem exceção. Um filme déjà- vu.
Se, portanto, não temos nenhuma esperança que o processo saia da monotonia histórica, de uma democracia esvaziada pelas acrobacias dos que reinam há séculos, podemos sim sonhar com algo diferente. E, aí sim, o grito dos jovens e velhos no ano passado está longe de ter perdido a força. Qualquer dos candidatos poderá vencer o pleito à sombra das regras antigas que todos gostaríamos de ver aposentadas, mas no dia seguinte à vitória, começará uma nova história que o eleito forçosamente ajudará a construir. O Brasil não suportará jamais a medíocre mesmice de um sistema que esvazia a política e a remete para o rol das entidades mais detestadas. O Brasil que não aguenta mais o cinismo de regras criadas para alienar a população do processo político, quer sim muito, a partir desta eleição.
Em primeiro lugar, que o Legislativo se torne definitivamente independente e deixe de ser a estrebaria de qualquer Executivo de plantão! Que seja ele o protagonista de uma colisão nacional em torno das reformas urgentes. Que chame a si a responsabilidade de provocar a discussão e elaborar a síntese necessária. Que os deputados eleitos assumam o compromisso histórico de salvar o nosso sistema democrático, hoje na UTI.
Que tenha a coragem de dialogar com a sociedade civil organizada para que de uma forma bem republicana, as portas do Congresso se abram a uma participação democrática constante e se elimine para sempre esse divórcio pós eleitoral entre congressistas e população.
Que o presidente eleito tenha a firmeza ética e moral para vislumbrar que o Brasil é um país rico em recursos humanos, espalhados por inúmeras áreas e repartições e que abomine a ideia de engessar o Estado com cerca de 25 mil cargos comissionados. Essa gente não soma nada. Dispersa e alimenta o status quo que queremos definitivamente eliminar da política. Esses apadrinhados embrutecem o nosso país.
A quantidade de ministros da República assusta até os mais alienados da política brasileira. Não existe conexão entre as pastas pela lógica da setorização e do inchaço das mesmas. Proliferam a dispersão e os gastos inerentes a cada pasta. Pesa o natural brio de seus responsáveis e das conexões inarráveis com os partidos políticos da coligação, nem sempre sintonizados com os interesses do Estado e do próprio executivo. Existem inúmeros países de tradição democrática séria que não possuem nem metade dos ministérios.
Espera-se ainda do presidente eleito uma capacidade de articular alianças em torno de interesses nacionais que também abomine o sacrifício de princípios e valores sem os quais tudo perde o sentido. Não é a isso que temos assistido desde a redemocratização! Governabilidade na maioria dos casos é desdém com os eleitores.
Finalmente, creio que o Brasil deseja legitimamente uma reconstrução total de Brasília. A capital não fala mais a língua da nação que representa! Uma reforma do Estado que se preze, passará por um esvaziamento do próprio simbolismo da cidade de Juscelino.

Manuel Joaquim R. dos Santos é padre na Arquidiocese de Londrina

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