A recente infestação de uma lagarta voraz em diferentes lavouras
brasileiras chamou a atenção para um problema antigo: o risco constante de pragas e doenças causadas por organismos quarentenários. Quarentenários são organismos como vírus, bactérias e fungos ou insetos e ervas daninhas, de outros países, que podem cruzar nossas fronteiras, causando doenças e danos às lavouras e criações. O perigo existe desde o descobrimento do Brasil, quando os colonizadores começaram a trazer, de outras terras, gado, aves, cana-de-açúcar, café e assim por diante. De lá para cá, cresceu o intercâmbio de plantas e animais entre o
Brasil e o mundo e, com ele, a ameaça das pragas e doenças exóticas.
Para monitorar tais riscos e organizar ações de controle, o Brasil criou, em 1909, o Serviço de Defesa Agrícola e, em 1934, o sistema de quarentena, em que confina todo material importado para agricultura por tempo necessário para que alguma praga ou doença dê sinal de vida. Mas a prevenção não é tarefa fácil. As pragas e doenças podem chegar por migração natural, viajando com plantas e animais, por terra, pelas águas e pelo ar, em contêineres e na sacaria, saltando de uma lavoura para outra, de país para país.
Pode ocorrer por introdução acidental: uma semente esquecida no bolso, um carrapicho grudado na roupa ou um pouco de lama e esterco preso no solado da bota. E, por fim, há a introdução intencional, num ato de agroterrorismo, com o propósito de causar prejuízos. É muito difícil, para qualquer país, controlar todas essas situações. No Brasil temos quase 17 mil quilômetros de divisas terrestres, grande parte em florestas, mais de 7.300 quilômetros de fronteiras marítimas e um espaço aéreo de mais de oito milhões de quilômetros quadrados.
Assim, temos sofrido sucessivas invasões desses organismos. Nos últimos 20 anos, além da Helicoverpa, aqui aportaram a bactéria que causa o HLB ou amarelão-dos-citros (2004), os fungos que causam a podridão-da-raiz (1994) e a ferrugem-asiática (2001) da soja, o besouro bicudo-do-algodoeiro (1983) e a mosca-dos-chifres (1980), que aflige os nossos bovinos. São bilhões de reais em prejuízos.
Já se sabe que há cerca de 450 outras pragas e doenças de alto risco aguardando a chance de invadir o Brasil. É difícil impedir essa invasão e não se pode prever qual praga chegará primeiro: se uma que já está num país vizinho ou outra que virá numa carga do outro lado do mundo. Sendo exóticas, é normal que não haja controle químico ou biológico disponíveis para uso imediato. Há doenças, como a mancha-vermelha-da-folha-da-soja, para a qual não há controle químico ou biológico desenvolvido.
A solução, então, é desenvolver plantas e animais resistentes a essas pragas e doenças, o que requer anos de trabalho. Então, é preciso fazer esse trabalho antes que o problema se instale. Um das estratégias é o melhoramento preventivo. É ideia antiga, mas eficiente. O pesquisador Alcides Carvalho, do Instituto Agronômico de Campinas, já em 1950, no auge da cafeicultura paulista, criou cultivares resistentes a uma doença que ainda não existia no Brasil, a ferrugem do cafeeiro. Em 1970, quando a doença chegou, os danos foram limitados.

A dificuldade em fazer melhoramento preventivo é que os recursos são sempre limitados e é preciso priorizar o combate às pragas e doenças já instaladas. Então, a chance de criar soluções para problemas futuros está nos momentos de fartura da agricultura, quando há um pouco mais de recursos.

É o que o Brasil faz agora. Além de buscar soluções para as pragas e doenças já instaladas, há grande esforço para desenvolver plantas resistentes a doenças devastadoras como o crestamento-bacteriano do arroz, a mancha-vermelha-da-folha-de-soja, e o crestamento-bacteriano-aureolado do feijoeiro, que ainda não chegaram aqui.

MAURÍCIO ANTÔNIO LOPES é presidente da Embrapa

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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