Para o cristianismo, a Teologia da Libertação foi um marco significativo no continente latino-americano após a década de 1960. Seja em uma posição de apoio ou de crítica, tal segmento esteve presente nas discussões de vários setores católicos e protestantes, inclusive no Vaticano, sendo este ferrenhamente contrário a tal proposta.
Formulando uma religiosidade a partir do contexto histórico, social e político da América Latina, tal movimento teve relevância especialmente no estabelecimento de uma posição crítica à ditadura militar, em que vários países enfrentaram nesse continente, inclusive o Brasil. Além disso, tal postura religiosa levava ao fiel a conscientização política e tomada de decisão diante dos problemas sociais enfrentados no cotidiano, tornando-se conhecida como "Igreja dos pobres".
Após o término do regime militar em 1985 e início do período democrático no Brasil, além do crescimento econômico, entre outros fatores, fez com que a Teologia da Libertação perdesse parte de seus aspectos iniciais, inclusive quantitativamente. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), uma das principais elaborações vinculada aos teólogos da libertação, já não possuem o mesmo número de grupos e capacidade de contestação política que havia no início, o que tem levado muitos a declarar a morte da Teologia da Libertação.
No entanto, pode-se dizer que ela não morreu, apenas foi reelaborada, inclusive, sem a utilização de seu nome original, muitas vezes. Domingo último, na 28ª Romaria da Terra do Paraná, evento promovido pela Comissão Pastoral da Terra, na cidade de Congonhinhas, foi possível perceber isso. Diante de um público próximo de quatro mil fieis, oriundos de várias cidades do Paraná, e de outros Estados, como Rio Grande do Sul e São Paulo, pôde-se verificar a existência de focos da Teologia da Libertação.
Com tema abordando "O monocultivo de pinus e eucalipto e suas consequências desastrosas para o meio ambiente", além de diversos problemas sociais, havia no evento a presença de movimentos sociais, como o MST e integrantes da CUT. Havia bandeiras das CEBs, do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) – formulado na perspectiva da Teologia da Libertação, Pastoral da Juventude e lideranças políticas do PT no estado.
No evento foi destacado como resultado do monocultivo de pinus e eucalipto: a destruição das nascentes de água, erosão do solo, exterminação de animais e plantas, concentração da terra, doenças, perda da biodiversidade, trabalho escravo, deterioração da paisagem. Foi feita também críticas ao latifúndio, utilização de agrotóxicos, expulsão dos camponeses e povos tradicionais (indígenas e quilombolas).
Na atualidade em que os problemas socioambientais vêm aumentando e causando uma série de questões que interferem prejudicialmente na vida rural e urbana, surge a necessidade de enfrentá-los criticamente. Nesse sentido, a religião pode se tornar uma ferramenta importante, no sentido de organizar e conscientizar os fieis a exercer um papel que contribua para a transformação social.
Em época que grande parte do catolicismo simpatiza, de forma geral, a práticas religiosas que desenvolvem o individualismo, bem como experiências espirituais muito parecidas com o pentecostalismo, percebe-se na Romaria da Terra em Congonhinhas, outra religiosidade popular católica, que envolve em sua agenda temas ligados a problemas sociais contemporâneos e a busca de solução. Assim, pode-se constatar a continuidade da Teologia da Libertação em setores do catolicismo, sob a contextualização da sociedade atual.

LUIZ ERNESTO GUIMARÃES é professor colaborador do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina

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