ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Oliveira Junior 
É fácil entender por que o Brasil poderá ter problemas e não é necessário um vídeo sensacionalista com mais de uma hora para explicar isso a alguém.
De uma forma geral, o que acontece quando alguém gasta mais do que ganha? Se for uma pessoa física, ela provavelmente entrará no cheque especial e começará a pagar juros elevados.
Para sair dessa situação, poderá recorrer a um parcelamento com juros menores, terá que fazer um aperto no orçamento e vai passar um longo período de vacas magras.
Se optar por não renegociar, ou deixar de pagar as parcelas, será negativada em órgãos de proteção ao crédito, poderá perder o emprego o que pode agravar ainda mais a situação.
Se uma empresa gasta mais do que ganha continuamente, ela até consegue passar incólume por um tempo.
Pode efetuar lançamentos em prejuízo, pode vir até ficar com patrimônio líquido negativo, mas os bancos começarão a cobrar juros cada vez maiores.
Em dado momento, os custos financeiros se tornam proibitivos e para levantar recursos a empresa pode começar a vender ativos. Se o fluxo de caixa ficar negativo, ela deixará de pagar primeiro os impostos, na sequência os bancos, depois os fornecedores deixam de receber e, por fim, os funcionários serão afetados.
Ela poderá ser liquidada mediante a venda de seus ativos para pagar os credores e, mesmo assim, muitos sairão com prejuízo.
Agora se um país gasta mais do que ganha continuamente, o que acontece?
Ele precisa pegar dinheiro emprestado para honrar seus compromissos, pagando juros por isto. Nessa situação precisa economizar para gerar superavit primário e, assim, pagar parte da dívida e conseguir obter mais financiamento no futuro.
Se não consegue fazer isso, perderá a confiança dos investidores que podem deixar de emprestar dinheiro. Torna-se necessário aumentar ainda mais os juros para continuar a atrair capital.
Com juros mais altos o problema se agrava.
Quando não consegue mais financiar suas dívidas o país pode imprimir dinheiro. No entanto, mais cédulas em circulação geram inflação que, por sua vez, corrói o poder de compra da população, agravando ainda mais a situação. O aumento de imposto tem o mesmo efeito.
Em última instância, o país pode dar o calote, decretando a famosa moratória. A credibilidade do governo ficaria abalada; muitas instituições nacionais e internacionais ficariam sem receber; algumas quebrariam e outras certamente deixariam o país. Teríamos um cenário com aumento do desemprego, inflação persistente, impostos e juros elevados, baixo nível de investimento, empresas fechando, mercado encolhendo e a população empobrecendo. Parece caótico? Vide Inglaterra na década de 70, Argentina na década de 90 e Grécia recentemente.
O ciclo de uma pessoa física é curto. Em apenas um mês ela pode perder o controle de suas finanças e entrar no cheque especial; no outro já pode parcelar e, dependendo da derrapada financeira, poderá sair do sufoco em até dois anos. O número de pessoas atingidas é pequeno, apenas você.
O ciclo de uma empresa é mais longo, dependendo do caixa ela pode operar com prejuízo por um ou dois anos. Levaria mais um ano para sua liquidação ou negociação de venda e em qualquer dos casos mais uns quatros anos para a solução final. Muitas pessoas seriam prejudicadas.
O ciclo do país é ainda mais longo, para entrar no problema bastam alguns anos de negligência nos gastos e desatenção com a inflação. Já para sair, custará mais de uma década de aperto e sacrifício de toda a população.
Então, percebam que os problemas podem ser complexos de se resolver, mas evitar é simples. Quer você seja uma pessoa física, quer você seja um governo: nunca gaste mais do que ganha.
É simples, é básico, é óbvio e evita muitas dores de cabeça.
OLIVEIRA JUNIOR é empresário e consultor finanças em Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


