Na natureza, os tigres ocupam, de modo geral, um território que pode chegar a 20 milhões de metros quadrados (km²). Confinado em um espaço de aproximadamente 40m², um desses animais no interior do Paraná "saiu da jaula", em Cascavel e, nas redes sociais, ganhou o mundo: a cena do menino com o braço dilacerado não é apenas o ataque de um tigre, é antes a agressão humana em relação aos animais e às regras mínimas de se respeitar pessoas, animais, leis e regulamentos.
Animais que atingem até 300 quilos de peso, os tigres utilizam sua linguagem – eficiente – para se comunicar. Especialmente, por meio de odores liberados pelos excrementos ou com arranhões em árvores e rochas, passam informações sobre idade, tamanho, características reprodutivas. Assim marcam o seu território. Ótimos predadores, inclusive nadadores eficientes, incluem em sua dieta pequenos búfalos, elefantes, rinocerontes.
O caso de Cascavel lembra o que ocorre no Nordeste brasileiro, principalmente nas praias de Recife, dentre as quais se destaca a Praia da Boa Viagem. Pouco se fala no desequilíbrio ambiental proporcionado, especialmente, pela construção do Porto de Sauípe, que aterrou duas áreas nas quais esses animais davam à luz seus filhotes. Prefere-se o tubarão como centro do problema – ou das manchetes a serem vendidas? Desde que se iniciou o monitoramento em 1992, houve 59 registros de ataques de tubarões, 24 mortes. A região, entretanto, apresenta 88 placas de advertência sobre a proibição de banhos devido a possíveis ataques de tubarões. Infelizmente, a imensa maioria dos registros se deve ao desrespeito a essas advertências. Dessa forma a cada novo ataque, seja de tubarões nas praias, seja de onças ou jacarés contra pessoas ou gado no cerrado, cresce a intolerância das comunidades vizinhas em relação a esses animais. Essa intolerância alimenta-se, sobretudo, da alegada impossibilidade de convivência pacífica entre humanos e animais silvestres. Exemplo disso ocorreu há alguns anos quando, na Alemanha, uma mamãe urso rejeitou um filhote. O pequeno urso polar foi alvo, mesmo por parte de ambientalistas, de uma campanha que defendia o seu sacrifício. Knut, como foi nomeado, não teria capacidade de se relacionar com outros ursos devido a sua relação anterior com humanos. Foi, porém, adotado por seu tratador. As consequências da intolerância humana não são nada racionais. Basta lembrar que em condições normais a relação com animais envolve o confinamento em jaulas ou gaiolas minúsculas, arenas de rodeios, na prática cultural (?) da farra do boi, nos maus-tratos de forma geral.
Tal qual há nas praias na região do bairro da Boa Viagem, não teriam faltado alertas sobre o risco iminente no zoológico. O tigre fez pura o simplesmente o que dele se espera – ou ao menos se deveria esperar. O premiado "Sobre meninos e lobos" traz em seu roteiro personagens que vivem fatos marcantes, que preferiam que ficassem esquecidos para sempre. O ocorrido em Cascavel vai permanecer no imaginário de muita gente, infelizmente, muito mais pelas cenas fortes do braço dilacerado. O que de fato não pode ser esquecido são os valores éticos, o respeito aos animais – sejam eles silvestres ou aqueles dos quais se espera que saibam fazer a "efetiva leitura" das advertências para uma convivência pacífica. Quando as rodovias apresentam placas de advertência "cuidado, animais na pista", espera-se que essa leitura seja feita pelos motoristas dos carros, não por jacarés, onças, tubarões ou tigres. Espero mais, que a culpa pelos péssimos índices na educação não seja colocada apenas nos ombros de meninos de 11 anos, que seja solidária entre aqueles que deveriam ler e os que devem promover a leitura.

REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e Policial Militar em Londrina

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