ESPAÇO ABERTO
O refrigerante e a violência
Fausto Fabiano da Silva
Em comercial de bebida há a seguinte frase: "Abra a felicidade". Mas qual a relação disso com a violência? Muito mais do que imaginamos. Vou explicar. Quando em uma sociedade a felicidade é transformada em um objeto material comercializável temos um problema. Afinal, é a própria felicidade que é comprada numa prateleira de supermercado. Quando a felicidade acabar é simples, compra-se outra. Penso que o correto seria, seja feliz primeiro e, então, beba o refrigerante e não o contrário.
Notemos, o refrigerante transformado em felicidade é apenas um exemplo de uma mentalidade em que ser feliz depende de algo exterior a nós, de preferência comprável, comercializável, transitório, para que haja outra vez a necessidade de nova aquisição. Essa maneira de pensar é muito grave, simplesmente porque nem todos podem comprar, consumir como desejariam. Ora, preciso tomar o refrigerante para ser feliz, como também preciso ter aquele carro luxuoso da propaganda, aquela casa confortável mostrada na TV, frequentar aquelas festas, ter aquelas roupas, fazer aquelas viagens. Nessa sociedade, o ter é a medida do sucesso, então, não ter é como ser uma pessoa de segunda classe, um meio cidadão.
Aquela propaganda, citada no início do texto, esconde uma grande contradição. Ao mesmo tempo que a sociedade, pela mídia, enaltece o consumo como necessário para a felicidade, essa mesma sociedade, exclui boa parcela da população desse consumo. Resultado? Pessoas que muitas vezes vão canalizar esse descontentamento pela violência. Estou justificando a violência pela desigualdade social? É claro que não. Entretanto, uma das causas da violência é muito mais a desigualdade social quando ela é profundamente injusta e grave, do que a pobreza em si mesma. Pensemos.
FAUSTO FABIANO DA SILVA é graduado em História e servidor público em Londrina.
Reajuste compromete empresas de saúde
Cadri Massuda
A Agência Nacional de Saúde (ANS) publicou no último dia 3 o índice de reajuste de 9,65% para as pessoas que têm planos de saúde familiar/individual. Esse índice está abaixo das expectativas das empresas de saúde por várias razões e dificulta o bom funcionamento delas. A primeira é que os indicadores de custo na área médica têm sofrido reajustes maiores que a inflação ocasionados por fatores como aumento da expectativa de vida e uso de novas tecnologias e medicamentos na saúde. Em paralelo, a ANS tem introduzido novas normas no seu rol de procedimentos como a obrigatoriedade de medicação oral para tratamentos de câncer e a utilização de cirurgias endoscópicas em larga escala, que estão trazendo custos altíssimos para as empresas de saúde.
Esses custos, absorvidos pelas empresas, terão o impacto financeiro calculado somente um ano e meio após sua implementação, ou seja, as empresas precisam oferecer tudo o que a ANS indicou durante um ano e meio, antes de qualquer reajuste.
Isso tem repercutido de modo significativo na sinistralidade (relação entre os custos sobre as receitas de uma operadora) que tem batido a casa dos 83%. Os outros 15% são relacionados às questões administrativas do sistema, sobrando para as empresas somente 2% entre lucro e investimentos na área.
É extremamente necessário que a ANS busque uma nova fórmula de cálculo da inflação médica que torne os indicadores mais justos, pois isso está comprometendo a equação econômico-financeira de todas as empresas de saúde suplementar. E, no caso dessas não conseguirem se sustentar, corremos o risco do usuário deixar o atendimento privado, sufocando ainda mais o público.
CADRI MASSUDA é presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo Regional Paraná e Santa Catarina.
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