ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Manuel Joaquim R. dos Santos 
Foram-se os que gastaram e ficaram os que precisam consumir. Tudo isso para que o país não pare! Afugentamos as crises invadindo o comércio e nisso percebemos que a inflação que odiamos nos persegue. E nos alcança exatamente porque compramos! E entre juros altos e inflação "controlada", está o cidadão que é chamado ao patriotismo colaborando para que a crise não se instale em definitivo. Triste realidade! Ele é o herói. O responsável. O protagonista. Sem ele, a crise nem fica, nem vai. Assim lhe dizem! E, então, ele testa o poder de seu salário. E, assim, vê que é um dom Quixote.
Pelo menos, a caminho do emprego que precisa preservar e do comércio onde necessita comprar, ele pode contemplar os belíssimos estádios. Ali, estão as arenas, nome latino que significa "areia". Era época dos gladiadores que lutavam até à morte numa superfície que absorvia o sangue. Digladiavam-se perante espectadores sedentos de pão e espetáculo que vibravam, choravam e apostavam nos lutadores. E, no final, quem vencia mesmo era o imperador! Saía momentaneamente fortalecido e adiava as insurreições populares e o incômodo do uso das legiões estacionadas em Roma. Quando a civilização evoluiu, as arenas apostaram na aproximação de povos e nações e no divertimento sadio de multidões. Mas onde está essa evolução? Cadê a isenção do esporte mais favorito que arrasta multidões? Onde foi parar o futebol do "jogar por jogar", do amor à camisa, à pátria? Não existe mais. Os cartolas internacionais e os de casa há muito roubaram a beleza que embalava esses espetáculos. A corrupção e o tráfico de influência caracterizam hoje essas instituições. E lá, nos belos e apoteóticos estádios, estava o cidadão herói desta nação! Chorando, se descabelando, "torcendo" e se frustrando com o insucesso de seu time de coração!
O povo não entendia por que o passado o traía! Não éramos até ontem o país do futebol? E depois do adeus, dos milhares de turistas? O que fazer agora que nos levaram a taça, os dividendos (fala-se em bilhões de dólares) e nos deixaram as belíssimas arenas que logo serão terceirizadas? Construídas com muito dinheiro público. O principal protagonista da história de qualquer país, o cidadão, o povo, retorna para casa apreensivo. Uma nação que precisa aprender a vencer. Um país que necessita urgentemente de serviços padrão arena - Copa do Mundo. E ao olhar incrédulo o que conseguiu construir, orgulhando-se de ser brasileiro, ele passa a mão na testa e percebe que a verdadeira copa mal está começando. Há que nascer da garra e da determinação, da disciplina e da educação. Se os alemães e os seus vizinhos nos trucidaram no centro do estádio, isso foi uma bela metáfora, que nos ajudará a entender que ninguém vive de passados gloriosos e nem fica derrotado para sempre depois de protagonizar duas guerras mundiais!
Ao chegar ao seu lar, o cidadão da Copa não fica deprimido. Sabe que o mundo esteve de olho no Brasil. Que o nome do seu país alcançou os mais longínquos recônditos e que o gigante precisa acordar de fato. Sediar um Mundial é teoricamente um privilégio. Aproveitar-se do evento para fazer um "up grade" na infraestrutura do país é mais do que possuir recursos financeiros. É vontade política, é eficiência governamental. Se no apagar das luzes do show, apenas a silhueta das arenas aparecer, a derrota para a Alemanha terá sido fichinha.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
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