O Brasil definiu em 1967 o padrão de TV em cores PAL-M que permitiu aproveitar as vantagens da estabilidade das cores do padrão alemão e a compatibilidade de recepção nos televisores preto e branco do padrão norte-americano. As pressões de diferentes interesses emperravam a implantação efetiva do PAL-M, até que o conceituado engenheiro Ovídio Barradas (um dos quatro professores da USP que definiram o padrão PAL-M), em 1970, vislumbrou uma oportunidade de catalisar tal decisão, como superintendente regional da Embratel.
Fez uma peregrinação junto aos três grandes fabricantes de então: Philips (holandesa), Philco (norte-americana e única que estava fazendo os primeiros testes em fábrica de televisores PAL-M) e Telefunken (alemã e criadora do padrão PAL), informando que a Embratel, em face de possibilidade de recepção no Brasil via satélite geoestacionário (Intelsat 3 – F7, lançado em abril de 1970), poderia receber do México as imagens em cores e converter no padrão brasileiro, se houvesse televisores adequados à recepção do PAL-M.
Topado o desafio, a primeira demonstração do novo padrão em cores, ocorreu em circuito fechado da Embratel, na transmissão da Copa no México, em junho de 1970. Foram cedidos alguns televisores pelos três fabricantes e instalados no Edifício Itália, em São Paulo (onde a Embratel dispunha de um centro de comunicações); no Rio de Janeiro (auditório da Embratel e no Palácio das Laranjeiras); e em Brasília (Palácio do Planalto). Quem não estava nesses locais assistiu à Copa em preto e branco. Em cores só pelo cinema (telejornal Canal 100).
Uma questão atormentava os idealizadores: e se a partida final ocorresse entre Brasil e Itália? Para evitar confronto entre torcedores, foram montados dois salões no Edifício Itália, o maior para autoridades, imprensa e VIPs e outro para a torcida italiana. Foi uma decisão acertada, pois a final acabou ocorrendo justamente entre Brasil e Itália, com goleada brasileira por 4 a 1 e a conquista do tricampeonato mundial e da taça Jules Rimet.
Era o impulso inicial que faltava para a implantação definitiva do padrão em cores no Brasil. Os primeiros testes em PAL-M em circuito aberto correram em 19 de fevereiro de 1972, gerado pela TV Difusora de Porto Alegre, focalizando a abertura da 12ª Festa da Uva em Caxias do Sul e, depois, o jogo entre Grêmio e Caxias.
Os primeiros televisores em cores foram colocados à venda às vésperas do Carnaval de 1972, custando entre 6.500 e 7.500 cruzeiros (respectivamente, 29 a 33 salários mínimos nacionais da época). Contudo, 42 anos depois a tecnologia e o consumo de massa oferecem aparelhos com o dobro do tamanho de tela, com LED Full HD ao custo inferior a dois salários mínimos.
Em Londrina, os televisores foram disponibilizados nas vitrines de poucas lojas, que receberam o sinal em cores retransmitido pela TV Tibagi de Apucarana (já que a TV Coroados, então pertencente aos Diários Associados, ainda não dispunha de todos os equipamentos operacionais). Os sinais passavam pelo Centro de TV Paulo Pimentel com as 5 antenas parabólicas instaladas - por helicóptero da FAB - na cobertura do Edifício Cinzia. Hoje com transmissão por rádios digitais, tais antenas também se tornaram obsoletas.
A TV em cores no Brasil foi oficialmente inaugurada em 31 de março de 1972. Na véspera, foi transmitido o 1º Grande Prêmio do Brasil diretamente do Autódromo de Interlagos. Contudo, pouquíssimos afortunados puderam assistir tal feito, sendo que apenas 14 televisores haviam sido vendidos em Londrina (que passaram a ter "televizinhos" para apreciar a novidade).
Na Copa de 2018 quem não tiver televisores digitais ou analógicos com conversores poderá sofrer um apagão, pois esse é o prazo final de transmissão de sinais analógicos. Experiências internacionais demonstraram que essa migração só foi possível com subsídio governamental em cupom de conversor para famílias de baixa renda, o que por certo acabará acontecendo por aqui. Afinal, o futebol faz parte da cultura brasileira.

MÁRIO JORGE TAVARES é especialista em Telecomunicações e Administração em Londrina

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