ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de julho de 2014
Amélio DallAgnol 
Tudo na vida precisa ter equilíbrio. Atitudes e propostas precisam ser racionais para serem consideradas e respeitadas. A melhor escolha entre dois posicionamentos extremos está no meio: nem muito ao céu e nem muito à terra, nem oito e nem oitenta, nos ensina a sabedoria popular. É no centro onde a virtude costuma estar.
Venho acompanhando pela imprensa as inúmeras manifestações sobre o problema das pombas em Londrina, com as mais diversas sugestões que vão do racional ao ridículo. É bem provável que as manifestações contrastantes sejam resultado de quem é vítima diária do problema e, portanto, exige do poder público (Sema, prefeitura) solução imediata, em contraste com aqueles que não sofrem as consequências da superpopulação dessas aves, mas se sentem no direito de também opinar, sugerindo tudo, menos o efetivo controle populacional dessas aves que emporcalham a cidade e disseminam doenças.
É importante que todo o cidadão de Londrina tenha espaço para emitir sua opinião, no intuito de promover a melhoria do bem-estar da cidade, mas que esses posicionamentos não venham permeados de ideologia ou excesso de ambientalismo, o que só nos leva a discussões sem fim e sem resultados, como tem ocorrido ao longo dos últimos anos, onde os radicais de ambos os extremos aceitam tudo menos abrir mão das suas verdades.
A solução do problema não pode mais esperar. É uma emergência que necessita ser solucionada antes que novas mortes, causadas por doenças transmitidas pelas pombas, aconteçam em Londrina. A sujeira depositada sobre ruas e calçadas, uma vez removida pelas chuvas ou pela lavagem contratada pela CMTU, acaba poluindo o Lago Igapó e incrementando o problema. Tampouco adianta resolver o problema do Bosque Central e não solucionar nas demais áreas da cidade, mesmo porque as pombas afastadas de determinado lugar irão mudar-se para outro local, na cidade, ou voltarão novamente ao lugar de onde foram afugentadas. A solução precisa ser definitiva: eliminar o excesso populacional.
Se o homem não impuser controle à população de qualquer ser vivo, seja ele fungo, bactéria, leão ou elefante, a própria natureza poderá fazê-lo de maneira mais dramática. Lembro-me de ter assistido a documentário sobre o suicídio de milhões de roedores no extremo norte do Canadá, como consequência da superpopulação originada de uma temporada de abundância de alimento. Finda a fartura e com a iminente ameaça de escassez de comida, a paranoia coletiva os levou à morte por afogamento. Os poucos que sobreviveram iniciaram uma nova população que persistirá enquanto não sobrevier novo desequilíbrio ecológico.
Promover a intervenção em populações desequilibradas, seja de plantas ou de animais, é desejável para a sobrevivência e harmonia da própria população em desequilíbrio. Na Austrália existe, de tempos em tempos, a liberação controlada da caça ao canguru, como forma de manter a sua população em equilíbrio com a natureza e evitar que sua super população comprometa a produção de alimentos dos humanos. Nos Estados Unidos, de tempos em tempos, é liberada a caça a um determinado tipo de pombo, quando o seu número atinge limites críticos.
No caso da evidente superpopulação das pombas amargozinhas (Zenaida auriculata) em Londrina, seu controle natural está longe de acontecer, se é que algum dia acontecerá, porque não há a menor perspectiva de falta de alimento, principalmente grãos de soja, milho e trigo desperdiçados ao longo das rodovias e nos pátios de silos e armazéns de fazendas, cooperativas e empresas processadoras de grãos, sem contar com as perdas deixadas na lavoura, no processo de colheita. Para a solução do problema, só resta às autoridades o fato de que terão que encarar a realidade e tomar decisões efetivas no sentido de eliminar a superpopulação de pombas, talvez com medidas pouco simpáticas a determinados setores da sociedade, mas que são urgentes e necessárias à saúde e bem-estar dos londrinenses.
AMÉLIO DALLAGNOL é engenheiro agrônomo e pesquisador em Londrina
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