O maior e melhor exercício que se pode realizar em busca de respeito é colocar-se no lugar do outro. Tarefa nada fácil, especialmente quando o roteiro traz solidariedade, corrupção, responsabilidade e toda a celeuma envolvendo a realização da Copa do Mundo no País.
Alguns chamam de gaiola, eu a chamo de símbolo da estupidez e da bestialidade humana. De repente, uma ave pequena, que possui um território de 2 hectares – 20 mil m² - passa a viver confinada em um ambiente de 30cm x 45cm, ou seja, 0,135m², uma redução de milhares de vezes em relação à área de que a ave precisa para retirar da natureza água, abrigo, alimento, reprodução... Imagine, então, que amanhã você acordará confinado em um ambiente de 3m x 2m. Não haveria motivo para preocupação, seria um presente da paixão da sua vida. Tanto amor que uma vez por dia você seria alimentado, uma vez por semana teria seus dejetos, urina, fezes, lixos, recolhidos. Não se trata de igualar homens e animais. A questão é respeitar as diferenças.
Para a natureza é assim: espécies meramente diferentes. Quem se sente mais importante que seus semelhantes são os adeptos do classicismo, segundo o qual a profissão ou os bens materiais são sinônimos de importância.
A ideia de respeito é inerente à cidadania e, nesse contexto, os japoneses deram uma fantástica lição, não apenas aos torcedores, aos manifestantes brasileiros, mas ao mundo todo: recolher voluntariamente o próprio lixo, após a derrota do Japão para a Costa do Marfim, foi assunto nas redes sociais de todo o planeta. Não foi questão de marketing, nem de mero exibicionismo. Lá, o senso comum indica o que nem legislação nem repressão conseguem por aqui: respeito. Importa ressaltar que não é o caráter temporal o diferencial da cultura oriental, fosse assim os egípcios não teriam sido o centro da primavera árabe. Assim, cada um oferece a educação que tem, seja diretamente nos estádios, ou indiretamente, apoiando as vozes dirigidas ao governo. Compreensível o som das arquibancadas: o governo estaria colhendo o que plantou. E quem planta corrupção e desrespeito não poderia colher algo diferente. Mas, na verdade é mais fácil culpar o outro, como se não fosse parte integrante – nem da natureza, nem da política.
A responsabilidade solidária é uma exigência da legislação ambiental, entretanto, difícil de ser vista naqueles que não demonstram respeito nem por animais abandonados nas ruas, ou por aqueles nas gaiolas, ou pelos ocupantes dos postos máximos da República. Pouco importa se as vaias ofensivas foram dirigidas à mulher Dilma ou ao governo que ela representa. Igualmente, atribuí-las à elite branca ou não branca não lhe confere maior ou menor legitimidade. Dizer que a manifestação no jogo de abertura da Copa do Mundo foi uma legítima manifestação de caráter político não é de todo errado. Pois, da mesma forma que cada um oferece a educação que possui, oferece também a política de que dispõe.
Não se sabe hoje quem é o maior analfabeto político no Brasil, quem não tem ido para a rua ou aquele que vai, mas desconhece o que pleiteia. Todo respeito às manifestações, ainda que incipientes, espera-se que possam evoluir e deixar um saldo positivo ao país. Mesmo que a plateia não tenha sido nada respeitável, é preciso lembrar que só uma cultura milenar como a admirável japonesa seria capaz de saber devidamente como se comportar diante de "palhaçadas" (sejam do governo, sejam da plateia).

REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e Policial Militar em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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