Dia 28 de junho, em plena Copa do Mundo, é bem possível que se passe despercebido o centenário do ataque que tirou a vida do príncipe herdeiro do império austro-húngaro Franz Ferdinand e sua esposa Sofia. Disparados por Gravillo Prinzip, membro de um grupo nacionalista sérvio, os tiros que mataram o príncipe também ceifaram mais de oito milhões de soldados que combateram na Primeira Guerra Mundial. Conflito que, nos dizeres do historiador Eric Hobsbawm, deu início ao "breve século 20". O cenário político da Europa e do mundo se modificaram permanentemente e as relações internacionais passaram a ser pautadas pelas suas consequências.
A organização terrorista Mão Negra planejou o atentado pretendendo a independência da Bósnia-Herzegovina ou sua anexação ao reino da Sérvia. Sua ação fez disparar um complexo sistema de alianças diplomático-militares que, a partir de agosto de 1914, colocariam a civilização ocidental em alerta. Aliada da Alemanha e do império turco-otomano a Áustria-Hungria pertencia à Tríplice Aliança que se contrapunha à Tríplice Entente formada por Rússia, França e Grã-Bretanha. Pressionada pela Áustria-Hungria, a Sérvia foi apoiada pela Rússia. Como peças de um dominó macabro, as declarações de guerra e invasões se sucederam. Por quatro longos anos a Primeira Guerra Mundial ceifou as vidas de toda uma geração de europeus em suas trincheiras. Era o ápice de uma escalada de fatores que provocaram a guerra: imperialismo, disputas comerciais, políticas nacionalistas, desejo de vingança por guerras anteriores, etc.
A arte de matar evoluiu tecnologicamente em escala industrial surgiram ou foram aperfeiçoadas novas armas e técnicas de combate como a metralhadora, o tanque, o avião de caça e bombardeio, o submarino, gazes venenosos, etc. A vida humana aparentemente era um número sem valor.
Ao findar 1918 a Europa e o mundo não mais seriam os mesmos, os disparos em Sarajevo haviam ferido de morte os grandes impérios. Com seus territórios drasticamente reduzidos, a Alemanha tornara-se uma república. Também a Áustria agora separada da Hungria e ambas isoladas do mar. Outros países seriam criados ou recriados como Finlândia, Polônia, Tchecoslováquia e Iugoslávia. Os bolcheviques conduziram sua revolução na Rússia transformando-a em União Soviética. A desesperança com a democracia liberal abriria caminho não só ao comunismo como também aos seus congêneres totalitários do nazismo e do fascismo. Grande beneficiário econômico do conflito, os Estados Unidos teriam uma década de ouro em termos de desenvolvimento, mas a crise estourada em 1929 os colocaria e ao mundo de joelhos por anos. O Brasil procurou substituir suas importações e deu um salto em termos de produção industrial e inauguraria uma década de revoltas que caracterizou o tenentismo e que culminaria com o longo governo de Getúlio Vargas.
Derrotada, a Tríplice Aliança teria seus membros punidos pelos tratados de paz subsequentes ao conflito, em especial aquele apresentado à Alemanha em Versalhes, cláusulas pesadas que pretendiam obter vingança e manter a Europa em paz. Uma sensação de paz que os europeus nunca mais sentiriam ao logo daquele breve século. À carnificina da Primeira Guerra Mundial seguiu-se a guerra total da Segunda (1939-1945) que se estendeu por todo o planeta envolvendo povos direta ou indiretamente. A Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética criou diversos pontos de tensão extrema cujo desfecho poderia ter sido uma guerra nuclear que destruiria o mundo como o conhecemos.
Os disparos de Gravillo Prinzip contra Franz Ferdinand acertaram todo o século 20. Toda a humanidade foi baleada junto com ele e sangrou muito nesse breve, tempestuoso e assustador período da história.

ROBERTO BONDARIK é professor e pesquisador da Universidade Tecnológica Federal do Paraná em Cornélio Procópio

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