ESPAÇO ABERTO
O amor cuida
Sylvio do Amaral Schreiner
Assisti, num desses programas que mostram pessoas com seus bichos de estimação, algo curioso e que também ocorre entre pessoas e que é extremamente prejudicial. A dona de um papagaio o enchia de comidas engordativas e que nem era parte de sua dieta natural. Fazia isso porque, segundo ela, lhe tinha grande amor e não conseguia privá-lo das gostosuras. O resultado foi que o papagaio ficou doente e o veterinário alertou que se ela continuasse dando o que não podia iria certamente matá-lo. A mulher alegou que fazia o que fazia porque tinha para com o papagaio excesso de amor.
Não existe isso de excesso de amor. A característica principal do amor é o cuidado do objeto amado. Entretanto, quando essa mulher enchia seu bichinho de guloseimas ela não estava de fato cuidando dele, porém o colocando em grave risco. Fazia mais mal do que bem. Como poderia então ser amor se amor não faz mal?
O problema é que muita gente não entende o que seja amor. Acreditam que entendem, mas confundem amor com o sentimento de posse, por exemplo. Nesses casos o objeto de amor, seja pessoa ou animal, ganha outra importância que provavelmente tem mais a ver com o narcisismo do que com amor. O papagaio não era amado pela mulher, que por isso mesmo não pôde cuidar dele, mas era usado por ela como alguma outra representação. O animal era para servir às suas carências, medos e angústias. Quando usamos algo ou alguém nesse sentido a consequência é desastrosa.
Excesso de amor é na verdade paixão e esta pode ser manifestação patológica. Enquanto o amor cria condições favoráveis e saudáveis para o outro, a paixão aprisiona. A paixão torna as pessoas ignorantes e incapazes de pensar, já o amor torna-as mais sábias porque faz compreender que nem tudo se pode e que limites se fazem importantes. A paixão, por sua vez, desconhece limites e quando determinados limites são negados o resultado é sempre correr perigos desnecessários. O amor sabe dizer não, pois "o não" pode também estar a serviço da vida. A paixão só conhece o sim sem limites e com isso cria as condições perfeitas para os excessos. A vida só pode existir no equilíbrio e nunca nos excessos.
SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina.
Afinal, o que é o amor?
Jhonas Geraldo Peixoto Flauzino
Há o amor segundo Platão: "Eu te amo, tu me fazes falta". Para ele, o amor é o "eros", que é o desejo. Desejo é o que nos falta. Aquilo que eu gostaria de ter e esta falta gera o sofrimento. Eis o vulgo do "amor platônico", aquele indivíduo que sonha e deseja o que não pode ter. Schopenhauer nos diz que "a vida oscila, pois, como um pêndulo da direita para a esquerda, do sofrimento ao tédio. Enquanto eu não tenho a pessoa que amo, eu sofro e, posteriormente, ao ter vêm o tédio. Uma vez que amava a falta, e quando este amor se faz presente, não há mais sofrimento, não há amor.
Há também o amor, segundo Aristóteles ou Spinoza: "Eu te amo: és a causa da minha alegria, e isso me regozija". Para eles, o amor significa prazer e desejo, que para Spinoza traduz: potência de agir, regozijar-se. É o amor que você tem o prazer de ter. Eu sou feliz por amar você. Eu te amo, pois, a tua simples presença me faz feliz.
Há o amor, segundo Simone Weil ou Jankélévitch: "Eu te amo como a mim mesmo, que não sou nada, ou quase nada, eu te amo como Deus nos ama, eu te amo como qualquer um: ponho minha força a serviço da tua fraqueza, minha pouca força a serviço da tua imensa fraqueza...". É o amor que nada espera. É o amar ao próximo, até mais que ti mesmo.
Existe também "dois modelos de amor". Eu te amo, quero que você seja minha, ou quero que você seja meu. O segundo, se resume ao que bom que você existe, fico feliz com a ideia de que você existe. Dois modelos, dois tipos de amor. Resta saber em que sentido está sendo usado a locução. Eu te amo, para ter sua posse, ou pela felicidade de você existir. E agora, qual a melhor forma?
Não há nada de errado com Platão ou Jankélévitch, todavia, o amor mais perfeito, é aquele que agrega o amor de Spinoza e Comte-Sponville. Assim, o amor é a alegria pela existência do amado. Assim, não ama-se a falta, a possessividade, nem mais do que a ti mesmo. Ama-se a existência daquela pessoa. O amor é uma alegria, que a ideia de sua causa a acompanha.
JHONAS GERALDO PEIXOTO FLAUZINO é estudante de Direito e administrador em Londrina.
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