ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Rafael Filippin 
Às vésperas da Copa do Mundo, especulações sobre o racionamento de água e de energia elétrica no período do campeonato mundial têm causado certa desconfiança na população. Em São Paulo, os reservatórios do Sistema Cantareira estão com níveis muito abaixo do normal, chegando na casa dos 9% de capacidade. Outras represas que abastecem a região também diminuíram significativamente nos seus níveis. Mesmo assim, a companhia responsável pelo abastecimento garante que não haverá racionamento, rodízio ou restrição de consumo de água em nenhum dos municípios atendidos.
Quanto à energia elétrica, cuja principal fonte são as usinas hidrelétricas, também há especulação em razão da falta de chuvas dos últimos meses na região Sudeste, onde estão localizados os maiores reservatórios do País. No entanto, o Ministério das Minas e Energia nega qualquer possibilidade de racionamento de energia elétrica durante os jogos da Copa. A Empresa de Pesquisa de Energética (EPE) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) também afirmaram que o racionamento só será recomendado pelo setor elétrico se for necessário, mas que não há indicadores que apontem para essa necessidade no momento.
Apesar da estiagem que afeta em especial a Grande São Paulo, o mesmo não acontece nos demais Estados brasileiros. Por isso, não há como afirmar se haverá falta de água e energia durante a Copa ou se haverá a necessidade das autoridades imporem um racionamento à população. O estresse sofrido pela população de São Paulo, afetada pela falta dágua, evidencia que as medidas adotadas até agora não têm sido suficientes para enfrentar esse desafio. Afinal, o que regula a disponibilidade de água não é somente a quantidade armazenada nos sistema, nem a quantidade consumida pelas pessoas. O maior problema talvez resida nas falhas do sistema de distribuição da água e da energia, e na destruição de ambientes naturais.
As antigas redes de distribuição de água são carentes de melhorias e de manutenção, por isso, são responsáveis por perdas que variam de 40% a 60%. Isto é, cerca de metade da água captada nos reservatórios sequer chega às casas das pessoas. Por sua vez, os sistemas de transmissão de energia elétrica apresentam índices de perdas que chegam a 15% do total da energia produzida, quando o nível aceitável seria de menos da metade disso.
Dessa forma, especular que haverá falta de água e de energia durante a Copa do Mundo por causa da falta de chuva não parece razoável. Afinal, é preciso implementar as medidas já identificadas no planejamento realizado pelos vários níveis de governo, de modo que todos os fatores que influenciam na oferta de água e de energia sejam equacionados. Dentre essas medidas, estão as que combatem as perdas do sistema de distribuição, com investimentos em manutenção e modernização. Outra iniciativa é a recuperação de nascentes e de áreas de recarga dos aquíferos, que são os verdadeiros e mais eficientes reservatórios naturais de água. Aliás, a renaturalização de certos trechos das bacias hidrográficas é atitude imprescindível para que as demais medidas estruturais (como a construção de canais, reservatórios, transposições de bacias e outras) sejam eficientes.
Pode faltar água para os paulistas durante a Copa? É possível que sim, mas não há como se afirmar com certeza absoluta, pois ainda existem medidas paliativas, como as transposições de bacias, capazes de resolver o problema mais imediato. Ou seja, o que essas especulações divulgadas refletem é muito mais uma disputa política entre os que são contra e a favor dessas medidas, do que uma preocupação real com a solução do problema. O fato é que a verdadeira solução passa pelo enfrentamento das causas, as quais foram apontadas acima. Enfim, o que se espera do poder político é que tenha a coragem de enfrentar o desafio, não mais com medidas paliativas apenas.
RAFAEL FERREIRA FILIPPIN é mestre em Direito Ambiental e professor no Centro Universitário Internacional Uninter em Curitiba
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