ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de maio de 2014
Dom Orlando Brandes 
Um homem chamado João foi nos dado pela bondade providencial de Deus, senhor da história. Veio do campo, tornou-se sacerdote, bispo, diplomata, patriarca, papa e santo. Desde jovem foi severo e exigente consigo mesmo. Penitência, sacrifício, domínio de si, purificação interior foi o itinerário que fez dele um ancião sorridente, um homem simpático, enfim, o papa bom. A purificação do coração conferiu-lhe serenidade, cordialidade, bondade.
São João 23 é o santo do Concílio, da paz, do ecumenismo e do diálogo. Seu lema era "obediência e paz". Obediência para ele significa: abandono nas mãos da Providência, deixar-se guiar pelo Espírito Santo, entregar o cotidiano a Deus, viver desapegado de si, mortificar o egoísmo, aceitar a tradição e a atualização da Igreja com um "coração crucificado e sorriso nos lábios" dizia.
O papa bom tinha um coração de pai. A santidade foi o segredo de sua bondade.
A obediência fez dele um homem pacificado, harmonioso, cheio de bom humor. A obediência leva à paz. João 23 foi o profeta, o artífice e o anjo da paz, na Igreja e no mundo. Até hoje ressoa no mundo a Encíclica "Pacem in terris". Ele mesmo era a paz personificada pelo seu rosto alegre, cortesia, gentileza, afabilidade.
O Concílio Vaticano 2º, segundo o papa Roncalli, não deveria se pautar pela severidade e condenação, mas, pelo "remédio da misericórdia". São João 23 tornou a Igreja atraente e convincente. Ele não foi apenas o papa da transição, mas, especialmente de intuição e inspiração.
Os santos nos são dados para a nossa imitação, não só para a intercessão. Sede santos, é o principal apelo da canonização de João 23. Ele mostrou a santidade por meio da humildade, da doçura, da gratuidade. Encoraja-nos a ser otimistas, nunca "profetas da desgraça". Nunca devemos ter medo de ser demasiado misericordiosos. Nossos olhos devem estar fixos em Jesus e não no mal. É bom e faz bem ser bom. Esta é a mensagem do novo santo.
No dia de sua eleição, lembrou-se das crianças, dos idosos e pouco antes de morrer disse ao seu secretário: "Loris, depois que tudo passar, vá visitar sua mãe e cuide de descansar um pouco". No leito de morte dizia: "Minha cama é meu altar. A hóstia do sacrário sou eu. Ofereço minha vida pelo concílio". Assim são nossos santos.
Certa ocasião o papa confidenciou a seu secretário: "Se tu soubesses como eu fico vermelho quando escuto alguém me chamar de santo padre. Somos todos pequenos filhos de Deus".
Dizia ainda: "Eu me sinto como uma criança nos braços de sua mãe". Seu propósito era: "Ser bom até ao heroísmo".
Gostava de repetir: "Não complicar o que é simples, é preferencial simplificar as coisas complicadas". Por isso, não se perturbou quando soube que tinha câncer e confessou: "Não tenho medo de partir", e ainda, "deveis trabalhar muito pela Igreja".
São João 23 foi grande na humildade e humilde na grandeza. Foi o grande amigo da humildade e por isso cativou o mundo.
Esse homem chamado João é o santo do novo milênio e nos ensina: "Se queres ser feliz, sejas antes de tudo bom". Deus é admirável nos seus santos.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


