Li em algum lugar que alguém que foi homem em sucessivas vidas anteriores (e, portanto, com afeição por mulheres) e que na presente existência nasça mulher, guarda na memória remota esse sentimento e tende a continuar com atração pela mulher. O inverso se dá com quem viveu idênticas vidas como mulher (e, por natureza, sentia atração por homem), e nascendo nesta vida como homem guarda no inconsciente essa lembrança e continua a gostar de homem. Porque conservaria na memória do perispírito o que foi, e não só com respeito a relações afetivas, mas também com outros pendores e tendências. Se fomos artistas, continuaremos com vocação para as artes, e assim com ofícios e predileções.
Em 1979, quando da celebração do trigésimo aniversário de criação da República Democrática Alemã (a comunista), o líder soviético Leonid Brejnev beijou na boca - diante das autoridades presentes - o líder alemão Erich Honecker. Dez anos depois, outro chefe de Estado russo, Mikhail Gorbachev, repetiu o gesto - ao selar-se a queda do Muro de Berlim - beijando também na boca o mesmo Honecker. Não foram beijos sensuais, mas intensos. Porque na antiga URSS o beijo fraternal entre os homens era e ainda é uma prática da conduta diplomática. (Algum tempo antes, pela minha condição de jornalista, fui autorizado a transpor aquele muro e visitar o outro lado – o lado comunista - e viria a entender o que representava de insensato aquele paredão de 150 quilômetros. Tempo de ditadura no Brasil, essa visita quase me custou a cadeia).
O beijo dos dois gays no último capítulo da novela "Amor à Vida" também celebrou alguma coisa: celebrou o amor entre duas pessoas. É normal? Imagino que para a maioria dos brasileiros, não. Se me perguntassem, de minha parte eu diria que fico com a mesma posição do papa Francisco: quem sou eu para emitir um julgamento a respeito do amor entre homossexuais?
A revolução cultural (ou contracultural) que irrompeu em 1968 e que gerou uma profunda mudança estética e de costumes em meio mundo, foi um fenômeno que abriu portais de libertação comportamental e que reflete até os dias atuais. Muita coisa começou aí. Eu estava em Chicago nesse ano e assisti ao festival de Woodstock que se realizava no extenso Ravínia Park. Vi ali cem mil jovens acampados, com bandas estridentes tocando música pesada, e os casais - incluindo menores de idade - entrando com sleep-bags e dormirem juntos. Fiquei perplexo. Era mais um brado de liberdade da juventude americana e que se irradiaria por quase todos os países. Os pais não puderam conter essa onda avassaladora.
Enquanto isso, em São Francisco, berço da beatmania, os hippies desfilavam com seus trajes extravagantes (e sem violência), o corpo tatuado e os tabloides dirigidos a essa comunidade publicando anúncios com propostas de encontros íntimos. As mensagens descreviam características físicas pessoais e especialidades na arte de fazer amor. Eu também estava lá, lugar que foi o grande palco desse "rolê" florescente. Perguntei ao meu guia se tudo isso era legal, e a resposta foi que a nação americana era democrática, e ante a dúvida, melhor era permitir do que ferir o princípio sagrado das liberdades individuais.
Desde então vivenciei cenas semelhantes, em outros países, inclusive na bem comportada cidade de Tóquio e na Europa sobretudo. No Brasil, os namorados passaram a sair juntos e sozinhos, à noite, coisa inadmissível até então.
Não me surpreendi com o beijo da novela entre dois homens, e agora está anunciado o beijo entre duas mulheres – duas belas mulheres - na novela "Em Família", já anunciado e aguardado. Beijos de amor, sem dúvida, na representação dos personagens. Há quem aprecie dois homens se esmurrando e se esvaindo em sangue nos ringues do boxe, mas se escandaliza quando pessoas do mesmo sexo se beijam.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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