ESPAÇO ABERTO
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sexta-feira, 11 de abril de 2014
Paulo Sérgio Nogueira 
Há realmente dúvidas se José de Anchieta foi ou não assassino, dado o enorme período de tempo que a Igreja levou para canonizá-lo. Sua canonização foi dentro do "politicamente correto" em vista do grande anseio dos católicos brasileiros por mais de 400 anos.
Seria bom ler livros históricos sobre o assunto com atenção e isenção. Existem muitos historiadores sérios no Brasil e no mundo que podem ajudar a compreender um pouco melhor do assunto.
José de Anchieta veio para o Brasil como missionário da recém-fundada Companhia de Jesus, aqui chegando em 13 de julho de 1553, antes mesmo de ser ordenado padre. Essa então nova congregação católica tinha um objetivo claro: instituir a fé cristã como uma ordem discursiva, submetendo as sociedades colonizadas à religião católica. Um dos mais notáveis empreendimentos de Anchieta foi a elaboração do primeiro catecismo cristão do Brasil, conhecido como "Diálogo da Fé".
O triste problema do primeiro catecismo cristão usado no Brasil é a imperdoável omissão da ressurreição de Jesus. Nada há sobre o túmulo vazio, sobre o terror que tomou conta dos guardas romanos, sobre a entrada de Pedro e João no sepulcro agora desocupado nem sobre as diferentes aparições de Jesus no espaço de 40 dias, entre a ressurreição e a ascensão. No catecismo de Anchieta a história de Jesus termina no túmulo novo de José de Arimatéia. O cristianismo se resume na ressurreição de Jesus.
O protestantismo chegou ao Brasil e se estabeleceu em 1557. Ministros religiosos, enviados a partir da recomendação do próprio João Calvino, chegaram ao país durante a tentativa de colonização francesa conhecida como França Antártica.
No mesmo ano, os calvinistas franceses realizaram o primeiro culto protestante no Brasil e, de acordo com alguns, da própria América. Mas, pela predominância católica, foram obrigados a defender sua fé ante as autoridades, elaborando a Confissão de Fé de Guanabara, assinando, com isso, sua sentença de morte.
Em 1559, Anchieta e Nóbrega teriam aconselhado o governador-geral Mem de Sá a condenar à morte o alfaiate e missionário calvinista Jean Jacques Le Balleur, por ensinar "heresias". Após longa prisão, em 20 de janeiro de 1567, no Rio de Janeiro, negando-se o carrasco a executar Le Balleur, diante disso, José de Anchieta o teria estrangulado, com as próprias mãos, ato que constituiu por longo tempo, entrave a sua beatificação.
Ainda que na prática a Companhia de Jesus tenha em muitos momentos da história colonial se afastado dos ideais de justiça social, o cristianismo sempre colocou em circulação discursos relacionados à humildade, à igualdade entre os homens. A forma violenta como o sistema colonial se impunha era, por isso, contraditória em relação a esses ideais. Profanos, infiéis, idólatras, ateus, etc. Quem não se convertesse merecia o peso da mão do colonizador.
O hábito discursivo do religioso está relacionado à bondade, à humildade, diferente do que acontecia, cuja imagem associada à violência figurava como uma característica bastante positiva, já que era necessário aterrorizar.
Em seus poemas, Anchieta cantou o massacre e a submissão, a ferro e fogo, dos nativos do litoral e a derrota dos franceses da Guanabara, em março de 1560, esses fatos apresentados como obras da vontade e da intervenção divina.
Um dos passos para a canonização é conhecido como "Venerável", no qual a Igreja Católica reconhece as "virtudes heroicas" nas quais foi a canonização de Anchieta.
A leitura e a compreensão da história não deixa dúvidas quanto ao seu caráter, exceto nas pessoas movidas pela razão.
PAULO SÉRGIO NOGUEIRA é teólogo e professor de História em Londrina
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