Preservar a Duque de Caxias
Paulo Talizin


A propósito da situação criada com a faixa exclusiva para ônibus e a proibição do estacionamento na avenida Duque de Caxias, acreditamos que comerciantes e moradores dessa via estejam pagando um preço injusto com a mudança imposta, uma vez que o retorno experimental do estacionamento já revela um resultado benéfico à vida comercial local, sem maior transtorno à mobilidade dos veículos. Até mesmo o referido retorno experimental do estacionamento se mostra muito discriminatório, e pergunta-se: por que apenas no trecho entre a Avenida Celso Garcia e a Rua Cambará foi consentido estacionar em horário restrito, e o restante da rua não foi contemplado com a medida?
Na verdade, é uma rua tradicionalmente comercial, tendo sua abertura acontecida nos primórdios da fundação da cidade e que não deveria sofrer a descaracterização que experimenta com a medida imposta. Atualmente até se nota alguma preocupação com a preservação de valores da história de Londrina, quando se cogita tombar alguns imóveis antigos da cidade. Nossa família faz parte dessa história, e meu progenitor (cidadão honorário de Londrina, que aqui aportou em 1929) foi o segundo comprador de lote na Companhia de Terras nessa via, e onde permanecemos até hoje graças à profunda raiz que se fixou neste solo.
Acreditamos que seria de bom senso transferir o trânsito dos ônibus que usam a Duque de Caxias para a Rua Uruguai (após recape asfáltico e a devida sinalização), onde o comércio menos denso não seria afetado. O retorno da vida tradicional na Duque de Caxias, como seria de justiça, traria inegáveis benefícios para a cidade, fortalecendo seu comércio, e implementando oportunidades de emprego, com os impostos que seriam gerados por certo. E, principalmente, não detonando nossa história e referenciais citadinos.
Aliás, muito se tem criticado a fuga de empresas de Londrina para outras cidades, mas por outro lado, por que não cuidar e incentivar o nosso progresso, ampliando o quadrado central daqui até a Rua Uruguai? E também até configurando uma preparação diante das possíveis mudanças viárias que se desenham com as projetadas linhas radiais para os "super ônibus", já antecipando o futuro de modo construtivo?

PAULO TALIZIN é médico




Cantar de tristeza!
José Roberto Brunassi
Observando condoído, um irmãozinho nosso na criação do mundo, um canário, preso em uma minúscula gaiola a cantar, e tentando imaginar o porquê disso, a resposta de seu "proprietário" foi rápida: "se solto ele morre de fome, pois não sabe procurar sua própria comida". Esse argumento não seria antes para aliviar o sentimento de culpa de quem o mantém preso?
Gente, se nós, humanos, ditos a coroa da criação, não formos em defesa dessas criaturas, quem o fará? Pensem: teria a natureza dado asas a eles para passarem a vida na gaiola? É justo nascer e morrer encarcerado? Será seu canto, embora lindo, o de alegria? Os pardais, soltos na natureza, não precisam cantar...
Vivemos o terceiro milênio, o mundo está globalizado e nós ainda nos comprazendo embevecidos diante da tortura de um pequeno serzinho. Não, não sou contra você, nobre criador, a você que, humanizado (muitas vezes tenho medo do e de ser homem), respeita sua criação disponibilizando espaço e os cuidados necessários.
Houve um tempo em que os humanos não se contentavam em engaiolar um pássaro, furavam também seus olhinhos, pois no escuro da cegueira, diziam, eles cantam melhor, e isso era considerado normal. Hoje isso nos choca e é considerado crime.
Será que futuramente também não nos chocará sabermos tê-los preso do nascimento até a morte? O que você me diz sobre isso? Mas por que esperar o futuro? Poderíamos já, hoje, abolir o uso das gaiolas, para em princípio ir mudando essa mentalidade e cultura e, posteriormente, enquadrar como crime de maus-tratos sua utilização. Ou isso não são maus-tratos? Nem todo canto é de alegria!

JOSÉ ROBERTO BRUNASSI é escritor em Londrina

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