Já escrevi sobre este tema e volto a ele para dizer que, embora movidas por impulsão religiosa, as encenações do martírio e morte violenta de Jesus - celebrados na quaresma - são angustiantes e pouco proveitosas para o reforço do desenvolvimento espiritual. A manifestação é simbólica e revestida de sentimento, porém carregada de representações de violência, com ofensas verbais, humilhações, açoites, culminando com a dolorosa morte na cruz.
Imagens de Jesus vestindo o manto púrpura, que foi colocado pelos algozes sobre seus ombros, e dele pregado na cruz e ferido mortalmente por uma lança - uma sinistra simbologia de trazê-lo de volta ao palco da tragédia - são muito cultuadas, quando melhor seria rememorá-lo com sua túnica branca original e com a beleza que revestiu sua vida; revivê-lo na pregação à margem das águas, pelas cidades e campos; pelo retorno de seu espírito à paragem celestial e sua aparição após a morte física. Porém ainda melhor seria reverenciá-lo pelos seus exemplos e sábios ensinamentos.
Não se assenta nas curas e na crucificação o fundamento maior da epopéia vivida pelo glorioso ser divino que baixou a esta dimensão terrena e reinou em corpo carnal, e sim no ministério revelado pelas suas palavras e pelos seus atos. A fé dos cristãos não deveria estribar-se apenas na obtenção de graças terrenas e sim na luz do entendimento e da sabedoria que ele desejou acender em nós. Tem sido mais cômodo adorá-lo e convertê-lo em salvador, pronto para nos conceder benesses e realizar curas, como se fossem estes os seus maiores atributos e a razão de sua vinda à Terra.
Jesus veio, antes de tudo, para dizer que o Reino está dentro de cada um de nós, que temos o poder emanado de Deus, que somos filhos do mesmo Pai e portanto uma fraternidade - e não no sentido temporal porém metafísico e transcendente, consubstanciado na unicidade com o grande Todo universal - e que por isso devemos nos amar uns aos outros. Em outras palavras, não ser um dependente de Jesus mas um caminhante ao seu lado. Foi ele quem disse que aquilo que fazia nós também o faríamos, "e ainda melhor". Isto quer dizer que somos portadores potenciais dos mesmos atributos, bastando que acreditemos neles, porque somos banhados pela luz divina. Por isso, não devemos crer em nossa pequenez ditada pelos sistemas de crenças dominantes e que assim nos induzem a ficar atrelados a eles, sem muito questionamento. Mas preferimos desprezar essas revelações e eleger Jesus para que execute em nosso lugar as tarefas que são nossas.
Jesus, que se intitula nosso irmão mais velho - ou não seríamos a fraternidade universal pregada por ele - ainda vive a paixão de o homem não haver compreendido os ensinamentos fundamentais da missão que o mestre nazareno exerceu aqui na Terra. Este é um dos seus lamentos, revelados por ele em manifestação dos nossos tempos. Jesus ainda carrega essa cruz e não deu por encerrado o seu projeto terreno. Por isso chama por seguidores em vez de suplicantes e adoradores, embora não abandone a estes.
Sim, todas as simbologias da crucificação seguem uma tradição e os fieis revelam devoção por esse rito - porque o fantástico e o inusitado são ainda os que mais seduzem o homem - mas vai chegando a hora do grande despertar, e então o homem reconhecerá a si mesmo e descobrirá o ser divino divino que ele próprio é. E assim se tornará livre e não mais terá dúvidas e não mais sofrerá. Nestes dias de quaresma, ao invés de reviver e percorrer vias dolorosas, melhor e pensar nesta verdade e nas verdades eternas reveladas pelo divino rabi.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup