O mundo assiste ao mais intrincado mistério da aviação comercial. Um Boeing B777-200 da Malaysia Airlines, que fazia um voo de Kuala Lumpur a Pequim (MH 370) com 227 passageiros e 12 tripulantes simplesmente evaporou nos ares, sem deixar vestígios, na madrugada do último sábado.
Tecnologias avançadas de dez países, inclusive os EUA, frustam as mais justificadas expectativas de localização da aeronave e, especialmente, as ansiedades dos próximos das vítimas. Teoriza-se fartamente sobre as hipóteses, porém quase todas as especulações fenecem sob algum ponto frágil.
Uma mancha de óleo na altura do Vietnã e do Sul do China foi descartada como indício, posto que oriunda do vazamento de um navio. Afastou-se, assim, a única pista material. O resto são lucubrações e já se iniciaram as acusações chinesas relativas aos procedimentos da Malásia.
Diz-se que o avião poderia ter-se desintegrado, em tempo bom e velocidade de cruzeiro. E nenhuma explosão foi detectada pelos sofisticados satélites americanos. O piloto poderia ter praticado suicídio, mas o despencamento da aeronave, principalmente em seu contato com o mar, manteve-a intacta e submersa. Falhas mecânicas merecem as mesmas observações. Não perdeu óleo.
Depois de dias de buscas, a Malásia revela que seus radares detectaram mudança de rota. Por que depois de todo esse tempo para ampliar a área de buscas?
A hipótese de um ato terrorista, em tais circunstâncias, parece-nos a mais plausível. Um ato ignóbil, longamente preparado, para levar as desespero os familiares das vítimas e desacreditar a capacidade tecnológica vinculada à segurança aérea dos países. Algo simplesmente imprevisível. Afinal, não foi imprevisível e tétrico o episódio das torres gêmeas?
Telefones celulares tocam, segundo relato dos parentes das vítimas. O silêncio mortal da ausência de resposta comprime, cala fundo, tortura barbaramente. A falta de informações submete todos a uma ansiedade quase insuportável. Os governos e a empresa envolvida se estressam no clima de desmoralização, sob saraivadas de críticas ansiosas. A pergunta que não pode ser calada: o objetivo do terrorismo não é provocar terror? E a dor da incerteza não aumenta a própria dor da morte certa dos entes queridos?
O episódio pode ter inaugurado um método sórdido de provocar profundos ferimentos não só nas vítimas, mas nas almas de seus parentes e amigos. O avião pode ter sido desviado. O silêncio dos perpetradores da monstruosidade pode ser inédita tática das organizações terroristas, que sempre assumiram, desde logo, as autorias. Se o Boeing desintegrou-se num choque com as elevadas e inúmeras montanhas do entorno, o mais viável é crer que já se teriam notícias.
Nem todas as cogitações são válidas, como dizem os investigadores, segundo os quais nenhuma suposição pode ser desprezada: aquelas que implicariam na inevitável réstia de vestígios visíveis carecem de verossimilhança. É mais viável pensar-se em sequestro e cárcere privado dos viajantes, o que importa em estarem sob o mais cruel desafio imposto ao homem, o da morte inevitável e adiada. É o terror que conta com as horas, submetendo suas vítimas às oscilações psicológicas da esperança e do medo, à tortura da lâmina que a qualquer momento pode cair sobre nosso peito, no melhor estilo da literatura de Poe.
Nunca um grupo de pessoas precisou tanto de solidariedade dos seres do bem. E nunca os investigadores dos diversos países tiveram tanta necessidade de rever conceitos estereotipados, na procura para dissolver o mais profundo mistério da aviação civil mundial.

AMADEU GARRIDO DE PAULA é advogado especialista em Direito Constitucional, Civil, Tributário e Coletivo do Trabalho

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup