Nos últimos anos, não se pode negar que houve a melhoria de vida de muitos brasileiros. Isso foi conseguido com a melhoria de renda pelo salário e a facilidade de acesso a crédito e bens de consumo. As pessoas têm consumido mais e ascende uma "nova classe média", tema de estudos e análises para intelectuais de diversas áreas.
Há estudiosos que consideram que há uma inclusão social, entretanto, que está apenas ligada ao consumo, não havendo inclusão de cidadania. Concordando com tal posição, podemos perceber que a inclusão social pela via do consumo nunca estará saciada. O problema é que quanto mais se consome, mais há necessidade de consumo. A inclusão social, principalmente para os jovens, torna-se cada vez mais cara. Para ser aceito é preciso estar na "moda", com celulares, tênis e roupas adequadas. Sem os códigos impostos necessários não entram nem nos rolezinhos. É impossível o salário e o crédito acompanharem a moda tão efêmera e descartável. As televisões são mais modernas e maiores a cada semana, sendo imprescindível um aparelho desses novo, sobretudo em ano de Copa do Mundo.
A marca registrada do capitalismo em que vivemos (e não podemos fugir) é a propriedade de coisas. Ter coisas é o que nos torna aceitáveis, o que temos é a essência do que somos. Precisamos de coisas, não pela utilidade delas, mas para exibi-las e nos sentirmos bem diante dos outros. O que hoje é "status" já não o é amanhã, precisamos trocar de celulares e carros urgentemente, sempre. Assim confirmamos que a inclusão social pela via do consumo apenas e do endividamento das pessoas para satisfazer a sanha do mercado (e não a nós), se transforma em ilusão e potencializa a instabilidade social.
Os dilemas existenciais da "nova classe média" afloram. O mesmo sistema que permite e possibilita sua ascensão lhe nega serviços públicos de qualidade. Ao mesmo tempo que entra em contato com um novo mundo, consegue perceber que paga caro por ele. E isso não é de agora.
O engraçado é justamente o maior poder de consumo trazer a questão sobre cidadania. Os protestos em meados do ano passado demonstraram a insatisfação com os serviços públicos, no entanto, serviram a pouca coisa concreta. A desorganização e a estúpida negação da política como ação e via de discussão contribuíram para dar em nada e emergir os baderneiros inconsequentes. Cada vez mais frequentes e dispersos em ideais os protestos continuam. A massa amorfa tem feito apenas barulho.
Para que sejam protestos de fato, precisam ser pautados pela cidadania e toda a responsabilidade que este termo traz consigo. Abraçar a luta pela cidadania e inclusão plena é aceitar e compreender a política como o elemento ordenador na sociedade democrática. Sem a luta política, sem o debate de ideias e sem a participação ativa nas questões coletivas não poderemos construir alternativas que sejam mais humanas para nossa vida social. Se, por um lado, o consumismo pode levar à cidadania, por outro lado, a busca pela cidadania pode superar o consumismo desenfreado, apontando para uma sociedade em que a essência do ser seja mais importante que a essência do ter.

ANA PAULA MOREIRA é estudante de Jornalismo na Unopar e WILSON FRANCISCO MOREIRA é professor de Sociologia em Londrina

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