ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
João José Batista de Campos 
Está faltando autocrítica no debate sobre a proposta de criação de uma Fundação Estatal de Atenção em Saúde no Paraná (Funeas). De parte do governo, ao não reconhecer que demorou muito tempo para tomar essa decisão. O diagnóstico sobre as insuficiências da administração direta no setor de saúde estadual já está feito desde 2011. Principalmente quando, felizmente, passamos a viver nos últimos três anos uma realidade de mais recursos estaduais para a saúde.
De parte da oposição, seja parlamentar ou sindical, a falta de autocrítica é mais grave. Afinal, já responderam pela saúde em governos anteriores e não ousaram modernizar o aparelho público da área. Ou já conviveram com episódios de corrupção no setor - frequentes até 2010, muitos deles causados por entidades que privatizaram serviços - e não foram contundentes na condenação dos mesmos. Naquelas oportunidades teria cabimento a consigna contra a privatização, e não hoje. Alguns segmentos da oposição deveriam relembrar que em 1986 a proposta de estatização dos serviços de saúde não foi aprovada pela histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde e idem na Constituinte de 1988.
O recente 2º Congresso Brasileiro de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, realizado pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco) em Belo Horizonte, em outubro de 2013, discutiu em profundidade os gargalos que sufocam o desenvolvimento da universalidade, da igualdade e da integralidade da saúde. Os participantes aprovaram a necessidade de novas institucionalidades que confiram mais agilidade à gestão dos serviços públicos de saúde. Sobram evidências pelo país afora de que a administração direta sozinha não consegue atender as necessidades operacionais dos serviços, prejudicando o atendimento aos usuários do SUS.
O Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (Inesco) está há 25 anos contribuindo para o fortalecimento do setor saúde paranaense. São milhares de profissionais e dirigentes formados e capacitados desde 1988. Centenas de pesquisas realizadas. Dezenas de trabalhos publicados. Apesar disso, não nos julgamos donos da verdade. Só queremos que respeitem nossa opinião. Porque ela não é pautada por interesses partidários ou corporativos. Temos sim, sobretudo, compromissos com uma atenção de qualidade para os paranaenses.
E quanto a isso, as muitas experiências em curso nos municípios e estados que já praticam a modernização do setor saúde estão sendo acompanhadas por análises e estudos que confirmam o acerto dessa iniciativa, que dá mais flexibilidade, agilidade e eficiência à gestão dos meios, mantendo os fins, os objetivos e os princípios constitucionais. Esperamos que o bom-senso e a serenidade predominem nos próximos dias e tanto o Conselho Estadual de Saúde como a Assembleia Legislativa do Paraná transmitam para a população mensagens de que cumprem com seu papel, sem serem reféns de palavras de ordem (ou de desordem) anacrônicas.
JOÃO JOSÉ BATISTA DE CAMPOS é docente do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina e presidente do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (Inesco)
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


