ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Manuel Joaquim R. dos Santos 
Democracia rima com manifestações. Elas são a expressão poética e maior do livre pensamento que visa demonstrar o diferente em circunstâncias mais variadas. Quando alguém quer inferir que esse ou aquele país está abandonando regimes totalitários, imagina o povo nas ruas com bandeiras em punho. Mas será tão fácil essa dedução?
Creio que não. As coisas não são tão simples assim. Democracia se propugna nas ruas, se alimenta nas escolas e se constrói nas urnas. A praça, a ágora, palco da própria democracia na Grécia Antiga, não toleraria jamais encontros bélicos fratricidas. Ali não é lugar de qualquer tipo de intolerância ou de confrontos remunerados! Perde-se assim o brilho e a cor do que de mais nobre deveria existir! A democracia deixa-se tiranizar e todo tipo de aproveitamento da forma, sem o devido conteúdo, a empalidece e denigre.
O Brasil atravessa uma fase inédita e perigosa. Nunca fui simpático a qualquer teoria conspiratória, mas vivo apreensivo com tudo que vejo. A crise econômica é mais grave do que tentam nos mostrar. A inflação batendo no teto que seria apenas ponto de referência. A Copa chegando envolta em tantas e legítimas apreensões; as principais instituições do Estado se desmoralizando ou carecendo de autoridade moral. O número de jovens que não quer trabalhar ou estudar, atingindo índices incompreensíveis. As nossas cidades são antros infernais de criminalidade, geradoras de infelicidade e angústia, fontes de estresse com consequências pessoais e familiares. Tudo isso ferve num caldeirão aquecido por combustível altamente inflamável!
O Brasil de hoje tem dificuldade em encontrar o caminho seguro da democracia que gere renda, liberdade, respeito pelas instituições e tudo consolidado por um Estado de Direito que seja mãe e não madrasta dos cidadãos. A revolta dos que pagam e não recebem, dos que acreditam e são ludibriados, dos que padecem nas filas de hospitais sucateados e andam em trens caros e ruins é extremamente preocupante para a democracia. Regimes totalitários do passado se fortaleceram em cima de situações análogas. As ruas, portanto, não transmitem necessariamente um grito democrático que visa salvar o perdido e precioso de nosso regime. Pode sim apelar para constrangimentos e endurecimentos que em nada ajudam nesse processo.
A polícia no confronto com os manifestantes executa o que aprende nos manuais. Mas o Estado que está por trás das forças da ordem, precisa muito mais do que regras e normas. Alguém pode me contestar dizendo que medidas a médio e longo prazos não resultam. Mas não acredito em atitudes imediatistas de mera reação! O Estado brasileiro que não acredita na recuperação de condenados, que condena antes do julgamento prendendo-os e esquecendo-os nos porões fétidos das delegacias, não tem muita moral para dialogar nos fóruns legítimos em que as praças mais uma vez se constituíram. É fundamental reconstruir a confiança no próprio Estado e na classe política. Não é algo para amanhã, mas todos os discursos extremistas que hoje se fazem ouvir, só prejudicam a compreensão dessa delicada situação e do desabrochar de soluções inteligentes e verdadeiramente democráticas.
O que está acontecendo nas ruas das nossas cidades não pode ser enquadrado em visões ingênuas ou preconceituosas. Existem bandeiras sim, mas até essas são levantadas por mãos que pedem ou exigem muito mais. A instrumentalização não generalizada está presente desde que cidadãos bem-intencionados se manifestam! Ou seja, desde que a democracia nasceu.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


