1. Onde estás? Esta pergunta Deus fez a Adão depois do pecado (cf Gn 3,9). Para nós hoje esta pergunta é ainda muito atual. Onde estou? Que acontece comigo? Por que encontro-me nesta situação? Não se trata de uma pergunta sobre o lugar onde moramos. Ela não se refere a lugares físicos. Nem é uma pergunta moralizante. É sim uma pergunta existencial. Onde estou nessas alturas da minha vida? Onde estou afetivamente, espiritualmente, socialmente? Onde me encontro? Estou certo? Estou errado? Estou perdido? Se me afastei, onde agora estou? Se desanimei, desisti, fracassei, onde estou? Se enriqueci, fiquei famoso, fui bem-sucedido, onde estou? Onde estou em relação a minha família, ao casamento, à vivencia da fé e da religião, a minha vida de cidadão?
Deus faz a pergunta a Adão não para condená-lo, mas ajudá-lo a refletir, decidir, melhorar. Deus quer o diálogo amigo, a conversa pessoal, o encontro existencial com Adão e conosco. Deus fala conosco como amigo, como mestre, como pai. Ele está à espera de nossa resposta.
2. Por que fizeste isso? (cf Gn 3,13). A pergunta é feita a Eva e a Caim (Gn 4,10). Não escapamos desta pergunta. Ela refere-se ao nosso agir, no trabalho, nossas obras. É uma pergunta iluminada e questionadora. Nossa consciência faz perguntas para que possamos confirmar o bem e abandonar mal. É arriscado a gente viver sem responder a esta pergunta. Preferimos ser surdos e mudos. As perguntas nos estimulam a melhorar, a crescer, a acertar. A vida e a história humana seriam bem diferentes se não fugíssemos das perguntas de Deus, da de nossos filhos, amigos, médicos, professores, etc. Talvez, aqui está uma das razões que explica o medo que temos do silêncio, da oração e até da morte. É preciso parar, escutar e redimensionar a vida. As perguntas de Deus são salvificas, interessadas em nosso bem, desejosas de respostas livres e verdadeiras. Deus tem a pedagogia do diálogo, usa a mediação da palavra e a metodologia das perguntas. Ele espera nossa resposta.
3. Onde está o teu irmão? (Gn 4,9). Que pergunta sábia, salutar, necessária e questionadora. Ela nos tira das amarras do egoísmo, do isolamento, do desinteresse pelos outros. É uma pergunta em favor da fraternidade, da alteridade, da benevolência. Toca nossa sensibilidade pela dignidade e centralidade do outro.
Gandhi, Mandela, Tereza de Calcutá e tantos outros responderam a essa pergunta. Eles foram até a ferida dos irmãos e se tornaram benfeitores, construtores, profetas, estadistas, santos.
A pergunta pelo outro é a mais importante de todas porque move à solidariedade, à compaixão e à transformação social. Sem o outro não somos nada. Com o outro, podemos tudo. Nossa missão é estar com outros, ao seu lado, ao seu dispor. O nome mais bonito dos livros sagrados e dos dicionários é: o outro. Com o outro construímos a história, somos família, resolvemos problemas, fazemos projetos, encontramos soluções. Somos seres sociais, somos irmãos, somos presente de Deus uns para os outros.
A pergunta pelo irmão, é a pergunta pela sociedade justa, solidária, fraterna, para que o mundo seja uma família. Quando vamos ao encontro do outro encontramos a Deus e a nós mesmos.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo do Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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