Esta antiga frase europeia tem muito a ver com o Brasil atual, porque estamos lotados de detalhes. Falo do detalhe do país que vai sediar uma olimpíada em 2016, com resultados pífios nas últimas versões. Sétima economia do mundo e nas últimas três competições - Londres, Pequim e Atenas
- não ficou nenhuma vez entre os 15 primeiros e corre o risco, pelo histórico, de não fazer bonito em casa. Mas está financiando atletas brasileiros em uma olimpíada de inverno em Sochi, na Rússia, competindo com Canadá, coberto de gelo, países da Escandinávia da calota polar e a própria Rússia. Seria pelas montanhas nevadas em Copacabana? Pelas pistas de esqui na Avenida Paulista ou pela placa gelada na floresta amazônica, onde praticamos esportes de inverno? Tem que ter alguma razão. Qual é? Penso, e não descubro.
Gastamos esse dinheiro em um motivo fútil, talvez, por que sobra dinheiro na saúde, embora a agência Bloomberg tenha colocado o Brasil entre as últimas nações no quesito saúde. Seria por que a educação não precisa de investimento e brincamos na neve? A Unesco mostra o Brasil em penúltimo lugar entre 40 países na área de educação. Ou seria por que não precisamos de investimento em segurança e nos damos esse luxo? As mortes (assassinatos) aumentaram 32% nos últimos 15 anos comparáveis a nações em guerra.
A quem interessa essa nossa participação em olimpíadas da neve? Talvez, estejamos mostrando como a lógica pode não ter ética e incentivar africanos juntarem-se a nós no mundo utópico da alegria. O que passamos ao primeiro mundo? Um risco de medalha ou que não somos racionais? Na neve poderíamos ser vistos como insetos num banquete.
Não seria mais prudente nos prepararmos para as olimpíadas de verão por que nossos recursos são limitados? Gastarmos esse dinheiro para crianças sem clubes, sem escolas, sem segurança, sem sapatos e sem esperança? Como nos metemos em uma fria dessa? Perdemos tanto nas olimpíadas da nossa seara que estamos desenvolvendo uma cultura da derrota? Ou algum dirigente sádico ficou contente ao ver uma atleta sem o preparo necessário quase perder a vida correndo o risco de ficar tetraplégica? Ou talvez alguém querendo manter contato para se projetar em algum órgão esportivo internacional? Algum motivo deve ter! Qual é? Será por que todas as cuecas e meias já ficaram cheias?
Somos pecadores, mas seria importante pecar um pouco menos. Esportes no Brasil são carente de quase tudo, embora tão rico em talentos pessoais com o boxeador Esquiva, que saindo de uma garagem, por pouco não ganhou uma medalha olímpica. Uma nação inteira com razão rejeitaria o Brasil em uma olimpíada de inverno, pois nada temos a ver com o gelo fora de um copo. Nunca fomos campeões olímpicos de futebol. Descer uma rampa a menos 10 graus centígrados, seria como se Neymar fosse para a China disputar o mundial de tênis de mesa.
Como continuar a viver nessa lógica de gastos se não há medicina básica, a ponto de importar médicos? Como pode um país, que tem 5% da população brasileira, mandar milhares de médicos para o Brasil? Saem de chocadeiras?
Não poderemos plantar ainda uma semente de bom-senso em um terreno onde o que vale é tirar vantagem. É impossível acreditar que alguns possam decidir por grandes erros. Está na hora de deixarmos a irresponsabilidade, pois temos tudo para mostrar de positivo. Não precisamos nos envergonhar com atitudes que nos direcionam para um caminho contrário ao sucesso.

NELIO ROBERTO DOS REIS é professor na Universidade Estadual de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup