Confesso que a onda dos "rolês" me deu apetite. É gostoso. É sugestivo. Procurei a receita com o Redzep, com o Alex Atala. Muito para mim. Fiquei com a Palmirinha, bem mais caseira. A receita é simples: bifes (de preferência coxão-duro), uns palitos e alguns ingredientes (bacon ou linguiça). É só enrolar o bife previamente temperado recheando-o com o bacon ou linguiça (cenoura também é bom), prendendo-o com os palitos. Fritar bem, deixar em pressão. Quando pronto, ferve-se em molho de tomate. Um belo prato! Com purê, então!
Deliciando-me, comecei a fazer alguns paralelos. Afinal, o que é um "rolezinho" (destes de shoppings, do qual temos tanto falado)? Um bando de carne – porém, sem recheio - preso por valores consumistas, altamente tolos e duvidosos.
O que incomoda é que os jovens dos rolezinhos organizam-se em bandos. Bonés ao contrário, camisetas regata, pulseirinhas identificadoras, tênis Nike, saias curtas. Vão para os shoppings de luxo com artigos comprados em camelôs. O negócio é "trombar", "zoar", "pegar geral". Vão estar "patrão".
Um rolezinho assusta, principalmente a moçada mais fina, estudantes de colégios particulares e que usam roupa de grife, embora a indumentária seja a mesma da moçada pobre: bonés, camisetas, sainhas, shorts femininos curtos, tênis alto estilo, entre outros (normalmente comprados em centros comerciais reconhecidos, mesmo que a origem de muitos desses produtos seja a Zé Paulino ou a 25 de Março). O celular tem que estar à mão para falar com os que estão longe, esquecendo os que estão ao lado. A única grande diferença é que a galera rica não vai em bando tão arregimentado e vai de "nave". A pobre, de buzão e às pencas.
Caso reunamos a playboyzada chique num canto de shopping, o comportamento será igual ao do bando pobre: vai aterrorizar, ao seu estilo. Com a diferença que o bando rico é mais clarinho e tem poder de compra; não se espera que furte e nem provoque correria. Mas o barulho é o mesmo: fala-se alto, todos de uma vez e os assuntos são fúteis.
Os dois bandos vão dar um rolê acompanhados de valores idênticos: bebem mal, comem mal, vestem mal, ouvem mal, falam mal, quase não pensam, têm educação duvidosa e são inseguros (embora tentem não demonstrar).
Como de costume, há muito segregamos espaços. Tem lugar para pobre e tem lugar para os de "maior poder". Basta que lembremos dos condomínios de luxo, aqueles com muros altos e que separam os indivíduos pobres de ricos (embora para se fazer um bife a rolê, por exemplo, seja necessário contratar aquele de quem se quer distância).
Sou do tempo em que os espaços eram mais democráticos, em que brancos, pardos e pretos conviviam com mais harmonia e que adolescente tinha crise de existência e sabia se comportar. Tempo em que as diferenças eram toleradas e a hipocrisia era rara (tenho certeza, por exemplo, que não seria cogitado por adultos, supostamente politizados, fazer uma "vaquinha" para livrar multa de mensaleiro).
Na verdade, está tudo muito chato e virando tema sociológico. Basta um rolezinho e já se mete, por exemplo, discussão sobre racismo no meio.
Vai passar. Acalmem-se. Não é um movimento social. Nada vai mudar. O assunto não merece teoria, infelizmente. Prefira falar em bife a rolê. Tem recheio e é mais saboroso. Com purê então!

AGNALDO KUPPER é professor em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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