"Rolezinho" é um diminutivo do francês roulê, ou rouler, de enrolar. Na versão brasileira da meninada é "dar uma banda". Por ora, nada a temer, mas a preocupação é que haja repressão injustificada e intolerância e que grupos de baderneiros se aproveitem da folia desses jovens (adolescentes dos bairros pobres de São Paulo) e comecem a quebrar vitrinas nos shoppings. Porque foi ali que os meninos encontraram o ponto ideal para o roulê, por causa da visibilidade. Numa praça pública a repercussão seria pequena e não atrairia o foco dos holofotes.
O rolezinho é um movimento de exibição, que começa pela internet, porque não existe hoje no Brasil um jovem que não tenha um celular. Sem esse instrumento, a adolescência e a juventude - rica e pobre - se acha ninguém... está por fora, e esta seria uma penosa situação de exclusão... Unificados, todos são protagonistas, embora tenham seus líderes, que são rapazes e meninas com milhares de seguidores no facebook e com voz de comando.
O episódio dos rolezinhos - e não apenas este - demonstra, ademais, o alcance das redes sociais, o vigor dessa camada da juventude e o poder da periferia. Dizer que esses jovens formam na fileira dos excluídos é apenas meia verdade, porque eles dispõem de todas as ferramentas de comunicação (o facebook é poderoso e democrático), usam vestimentas de estilo, a seu modo, mesmo que não sejam de grife, e demonstram grande mobilidade. No shopping, eles podem desfrutar, com os ricos, do ambiente e dos serviços das praças de alimentação, embora com menor frequência. Já as mercadorias das lojas são caríssimas, mesmo para a classe média-alta. O rolezinho não é uma ameaça social. O perigo reside na possível infiltração dos black-blocs e no que vimos na mesma internet: a reação virulenta dos contrários, com explícitas manifestações de ódio, ofensas, discriminação e racismo.
A rapaziada bem que poderia aproveitar toda essa energia e - já que se instala nesses centros de vendas - manifestar-se (de forma ordeira, naturalmente, podendo valer-se da linguagem do funk) contra o supertabelamento de preços ali praticado, contra o intento de enganar com o R$ 9,99 (que não se estriba em nenhuma ciência de numerologia), contra a farsa de que o preço a prazo é o mesmo do preço à vista e também contra o ardil das liquidações, que nada mais são do que a volta aos preços normais, superelevados em outras épocas. Redução de 50% significa que houve uma elevação anterior idêntica. Só é sincera uma liquidação quando a loja vai encerrar atividade.
O poder da periferia não é coisa nova, porque, nas eleições por exemplo, as classes menos favorecidas é que sempre decidem, geralmente colocando no poder os candidatos populistas. Se um ou outro, populistas ou não, são mais corruptos que outros, no geral todos os políticos no Brasil têm sua porção corrompida, porque mesmo aqueles tidos como honrados não abrem mão dos polpudos ganhos, das exorbitantes verbas de representação, das mordomias e muitas coisas mais...
O rolezinho é um espetáculo de ostentação, típica dessa bela idade da juventude, mas não deixa de ter uma implícita conotação política, mesmo que não intencional. Porque esses jovens também aspiram ter a melhor vestimenta, o melhor tênis, o mais moderno celular. Isto por enquanto, porque eles têm também anseios mais ambiciosos. Imagina-se que eles se manifestem também durante a Copa, porque todo o mundo os veria. Essa oportunidade não seria desperdiçada ante um palco tão vasto e um cenário tão propício. Se eles ostentarem cartazes reivindicantes, tanto melhor. Em princípio, eles já demonstraram que são pacíficos.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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