Ao assinar no último dia 16 o contrato e a ordem de serviço para a reconstrução do Cine Teatro Ouro Verde, de Londrina, o governador Beto Richa deu o passo inicial para a recuperação de um dos mais importantes ícones arquitetônicos do Norte do Estado. Destruído por um incêndio em 2012, o Ouro Verde ganha agora a certeza de que voltará a abrigar eventos artísticos e a influenciar a vida cultural da cidade, dentro de um ano e meio.
Projetado pelos arquitetos João Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, o Ouro Verde foi inaugurado no Natal de 1952. Com seus 1.500 lugares (1.100 no auditório e 400 no balcão), à época de sua inauguração, o Cine Teatro era um dos maiores equipamentos culturais do Sul do Brasil. Ao longo de 60 anos de atividades o Ouro Verde atuou decisivamente na formação cultural dos londrinenses, constituindo-se num motivo de orgulho para a cidade.
Patrono da primeira gestão do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná (2012/2014), o curitibano Vilanova Artigas é considerado, ao lado de Oscar Niemeyer, um dos grandes arquitetos brasileiros, sendo nome marcante para toda uma geração de profissionais. O projeto do Ouro Verde, desenvolvido ainda na fase inicial do trabalho de Artigas, não evidencia a sensação de leveza de outras obras suas em parceria com Cascaldi. Mesmo assim o edifício, junto com a antiga rodoviária de Londrina (hoje Museu de Arte), outro projeto da dupla Artigas e Cascaldi, transformou-se num marco de modernidade arquitetônica da cidade.
Todo este preâmbulo tem o objetivo de chamar atenção para os nossos bens arquitetônicos e para a necessidade de conservá-los, ou restaurá-los quando necessário. Um edifício é muito mais que apenas uma estrutura de tijolos, cimento e ferro. Um bem arquitetônico é o resultado de um conjunto de experiências, sentimentos, sensações e histórias vividas pelos que dele fazem uso.
Quantas vidas tiveram episódios marcantes associados ao Cine Ouro Verde? Quantos relacionamentos resultaram de encontros iniciados no seu saguão ou sob a sua marquise? Assim como um álbum de fotografias ou um arquivo, um edifício histórico como o Ouro Verde, mais que os filmes, espetáculos e eventos que recebeu, guarda fragmentos da memória de toda comunidade de Londrina, pelo que significou para ela. E a história, as lembranças, são bens incomensuráveis. Suas perdas não podem ser reparadas.
Em Curitiba, pela falta de uma Lei de Tombamento, assistimos passivamente nos últimos anos a demolição de diversos prédios de interesse histórico. Em seu lugar surgem edifícios sem alma, com arquitetura e nomes pomposos, mas de qualidade no mínimo discutível.
É urgente que sensibilizemos nossos administradores nas três esferas de poder para esta questão. Tanto os governos municipais, como os estaduais e o federal precisam desenvolver ferramentas legais eficientes, que realmente assegurem a preservação dos nossos bens patrimoniais.
Daí a importância de parabenizar o governo do Estado e a Universidade Estadual de Londrina pela reconstrução do Cine Ouro Verde. Por tudo que ele representou e por tudo que, com certeza, ainda representará.

JEFERSON DANTAS NAVOLAR é arquiteto, urbanista e presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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