ESPAÇO ABERTO
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Ribamar Leonildo Maroneze 
Fim de semana tem "pelada", aquele jogo de futebol despretensioso, divertido, recheado de amadorismo onde a preocupação maior não é o resultado final da soma dos gols. Reúnem-se amigos, um gramado mal demarcado e um isopor abriga a premiação no fim da partida que é dividida por todos. Domingo tem clássico, Corinthians e São Paulo investem milhões em contratos com jogadores, em centros de treinamento, em categorias de base, em técnicos renomados, as duas equipes põem em campo a rivalidade e um histórico primoroso no futebol brasileiro e mundial. Milhares de pessoas irão ao estádio e outras tantas assistirão a transmissão televisiva. Quem vencer o jogo escreve o nome na história!
Quatro prefeituras paranaenses se mobilizam para garantir a instalação de um curso de Medicina. Asseguraram o direito as cidades de Campo Mourão, Guarapuava, Pato Branco e Umuarama. Isso faz parte do projeto de ampliação de vagas em cursos de Medicina pelo Ministério da Educação (MEC), que contempla inicialmente 49 municípios em 15 estados. O MEC espera criar até 2017 o total de 11.447 novas vagas em cursos de Medicina, sendo 3.615 em instituições públicas e 7.632 nas particulares.
Os sites das prefeituras destacaram a notícia e fizeram questão de vincular a conquista ao bom relacionamento dos prefeitos com o governo federal.
Um curso de Medicina bem estruturado, em uma instituição tradicional e bem creditada em sistemas de avaliação, possui cerca de 10.838 horas curriculares a serem cumpridas pelos futuros médicos. Destas horas, 6.852 são exercidas em estágios essencialmente práticos, supervisionados, em hospitais-escola, notoriamente conhecidos por receber e tratar pacientes com patologias as mais diversas, desde casos simples até os mais complexos, nas diversas áreas,disponibilizando tecnologia de diagnóstico e tratamento de todo tipo e atualizadas, laboratórios, com os objetivos principais de assistência, ensino e pesquisa. Além do mais, é nessas instituições que os alunos têm contato com prontos-socorros lotados, macas pelos corredores, falta de leitos para internação, dor e sofrimento, ou seja, condições reais de trabalho proporcionadas pelo nosso rico Sistema Único de Saúde.
No novo programa do governo federal, um dos hospitais que abrigarão os futuros médicos em treinamento trata-se da Santa Casa de Terra Boa, próxima ao município de Pato Branco, pretendente a uma escola de Medicina. Este hospital, inscrito no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) sob o número 2.334.755, possui 33 leitos e nada mais do que cinco médicos atuantes naquele estabelecimento. Sem criticar a qualidade do atendimento, por não conhecer, mas certamente não é a estrutura ideal para treinar médicos nas patologias básicas nas dezenas de especialidades existentes na Medicina.
Curiosamente, as quatro instituições selecionadas no Paraná são privadas, ofertarão cursos de Medicina mediante pagamento, nenhum investimento público. É intrigante aceitar que uma família custeará R$ 5 a R$ 6 mil de mensalidades por seis anos para depois ver seu filho trabalhando como médico em "Itajupoca da Esquina do Mato de Dentro", onde não existe sequer um aparelho de eletrocardiograma? É o programa de interiorização do médico, uma justificativa para essa insanidade.
Na saúde pública devemos lidar com profissionais os mais bem treinados, com investimento, com planejamento e preparação, lidamos como se fosse um clássico Corinthians e São Paulo, mas parece que o governo trata como se fosse uma "pelada" de fim de semana onde, no final, todos irão se esbaldar com a cervejinha gelada do isopor. É a política de médicos mais ou menos para um governo meia-boca.
RIBAMAR LEONILDO MARONEZE é médico Ginecologista e Mastologista professor da Universidade Estadual de Londrina e secretário Municipal de Saúde de Apucarana
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