ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Rodrigo Czajka 
Ninguém há de negar que vivemos tempos instigantes. Nas últimas décadas a sociedade brasileira tem passado por transformações estruturais significativas, pois não afetam tão-somente um determinado grupo social ou classe. E antes as certezas que eram âncoras num mar de indefinições e comodismo pequeno-burguês, hoje são postas à prova numa nova ordem que ainda se desenha no horizonte.
Das jornadas de junho de 2013, passando pelas intervenções black bloc e chegando aos "rolezinhos", as manifestações que emergem em território nacional são a expressão clara daquilo que em sociologia denomina-se de "conflito social". Conforme Bottomore, em seu "Dicionário de pensamento social do século 20", em sociedades abertas, pluralistas, os conflitos têm consequências estabilizadoras. Em sociedades desse tipo surgem uma variedade de conflitos em diferentes esferas. Disso resulta que o envolvimento múltiplo dos indivíduos em vários conflitos une firmemente a sociedade ao fomentar diferentes alianças para diferentes demandas. Em oposição a isso, nas estruturas rígidas (como é o caso do Brasil), os conflitos tendem a ser suprimidos e eliminados, favorecendo polarizações simplificadoras da realidade social e a desagregação.
Numa perspectiva de longa duração, a história da sociedade brasileira se confunde com a história do exercício do poder de grupos política e economicamente hegemônicos sobre os espoliados da política e da economia. Uma história construída com a presença de classes dominantes travestidas culturalmente por concepções autoritárias e "civilizadas" e que sempre viu na pobreza não um problema a ser entendido e superado, mas eliminado.
Qualquer traço de participação popular em países com grandes diferenças sociais, como é o caso do Brasil, sempre foi visto como um entrave à civilidade, aos bons modos, aos "princípios democráticos", como se estes servissem apenas a uma única classe aquela mesma que sempre defendeu a democracia exterminando porções sociais inclassificáveis do ponto de vista estrutural. Por preguiça e por ignorância sempre foi (e pelo jeito continua sendo) cômodo denominá-las como baderneiros, arruaceiros, vândalos, marginais ou até bandidos, que entender a origem de tamanha rebeldia contra uma determinada ordem social instituída. Note-se: não se trata de justificar a violência, mas compreender por que ela tomou essa proporção hercúlea.
Ao se negar a entender o processo em curso, uma parcela da população hoje confessadamente arrependida desde o primeiro momento, preferiu interpretar os protestos populares como uma "festa da democracia". Juntando-se ao coro dos descontentes, saíram às ruas como quem vai para uma grande balada a céu aberto. Pela televisão e pela internet atenderam ao apelo publicitário para participar de passeatas como quem é incitado a aproveitar uma liquidação do comércio e somaram-se às massas televisionadas. Manipulação? Só se acreditarmos que o ethos da classe média brasileira se constitui única e exclusivamente pela coerção social de um grupo sobre outro. O que explicaria, por exemplo, a cínica vitimização destes que se sentiram enganados pela brutalidade das massas. Ora, não houve qualquer manobra ou manipulação; o fato é que os manifestantes festivos, em determinado momento do baile, reprovaram o tom estridente da música que, por ser incômoda e estranha aos padrões ordeiros, motivou até a presença da polícia. Et voilà: resolve-se o conflito mais uma vez!
O fato que se oblitera nisso tudo é entender que tais manifestações incutidas de rebeldia e favorecendo o conflito têm sido, na história desse país, a única forma das massas populacionais historicamente excluídas tornarem-se visíveis aos olhos do projeto civilizacional. É um preço alto? Talvez sim. Mas não tão cara quanto a resignação das massas e o altruísmo burguês que de forma frágil mantêm a tão sonhada ordem e o progresso.
RODRIGO CZAJKA é sociólogo em Londrina e professor do departamento de Sociologia e Antropologia (Unesp/Marília)
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