A coisificação do ser humano é um fenômeno que nasceu com o aparecimento da inteligência do homem. A valorização da coisa em detrimento dos valores próprios do homem. A coisificação leva ao olvido de sua própria história, numa autorredução destrutiva, resultado da ânsia em agradar a maioria que o explora e o esmaga.
A inteligência permitiu ao homem impor-se como ser superior, levando seu desejo de poder às raias do absurdo (escravidão, servidão, exploração infantil, prostituição, guerras, fanatização, etc.). Esta tendência mórbida está cravada em seu ADN desde tempos imemoriais.
A inversão de valores é tão grave que, acredito, se uma pessoa encontrar um cão e uma criança abandonados, recolherá o cão e ignorará a criança. Não há uma única campanha em prol das crianças abandonadas com a mesma ênfase daquelas que gritam por cães e gatos abandonados.
Marx, ao analisar a questão da mercadoria afirmava que se trata de uma relação social estabelecida entre os homens que "assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas".
O sistema, através de discursos ideológicos, tenta dissimular a realidade com histórias onde a riqueza e a pobreza são contingências naturais da vida, e não o resultado da exploração de muitos por uns poucos. Não há qualquer resquício ético ou moral no capitalismo. Artistas e celebridades surgem da noite para o dia, como mágica. Energúmenos tornam-se gênios, prostitutas viram best sellers literários com direito a filme patrocinado pelo governo, bandidos da pior espécie tornam-se heróis nacionais.
A simplificação contínua do objeto de arte, tornando-o acessível à mente da patuleia ignara, faz parte do processo alienante mantido pelo sistema, de forma que o espectador sente-se atraído apenas por esquemas simplistas e idiotizantes, o que garante o sucesso da produção artística de baixo calão.
Como nem todos podem realizar o sonho de consumo que é aparecer na TV, as pessoas apresentam-se ao mundo através da internet, das formas mais esdrúxulas, oferecendo-se para atividades sórdidas e expondo a própria intimidade, atendendo, assim, aos anseios de sua vaidade e vendendo a imagem a qualquer preço.
Para muitos jovens da geração 1990, a vida não vale mais do que um par de tênis, um boné de marca ou um celular – mata-se, friamente, para se ter estas coisas.
É a prioridade da vida transferida para a prioridade da coisa.
O hedonismo guia os jovens. O amor, a paixão, a conquista, o namoro, são coisas do passado. Hoje "fica-se", beija-se sem compromisso, transa-se sem culpa. É a morte do amor. Esse comportamento equivocado é estimulado pela mídia, através de "shows" repletos de "musas" seminuas rebolando ad nauseam; de novelas cheias de casais infiéis que nunca saem da cama dos amantes, e jovens que, após a troca de dois olhares, já rolam pelos lençóis...como se tudo fosse natural.
A mulher coisifica-se via exuberância corporal que disfarça a mediocridade cerebral. A mulher coisa aceita epítetos como "popozuda", "boladona", "cachorra", "eguinha", além de converter-se em suculentas frutas. Como pode um ser humano descer tanto apenas para estar em evidência? Essa é a ditadura da vaidade, engendrada pela mídia via interesses capitalistas, que transforma o ser humano em coisa. A mulher normal passa a achar que, para existir como mulher, terá que se submeter a todo lixo midiático que invade sua vida todos os dias. Se você não for assim ou assado, você não é uma mulher completa... Milhares de moças buscam a salvação no gigantesco mercado cosmético e nos consultórios de cirurgia plástica. Cobrem-se de tatuagens de gosto duvidoso, associam dietas mirabolantes, desenvolvem bulimias e estão se transformando em zumbis.

PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e professor em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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