ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Íria Stein Siena 
Há alguns dias uma foto nos jornais mostrava jovens dentro de um
shopping em Vitória (ES), todos sentados com as mãos na cabeça, sem camisa e cercado por policiais segurando armas e cassetetes. O crime? Participavam de um baile funk, eram negros, pobres, vestiam bermuda e chinelos.
Esta semana uma empresária disse, em entrevista à Folha de São Paulo, o que muitos frequentadores desses espaços pensam: "Tem que proibir esse tipo de maloqueiro de entrar num lugar como esse", ao comentar sobre um grupo de jovens que "invadiu" um shopping em Guarulhos (SP). Os jovens foram detidos, mas liberados pois não havia do que serem acusados formalmente. Porém, já haviam sido acusados socialmente: por serem pretos e pobres não pertenciam àquele lugar. Na citada notícia, esses jovens são evidenciados por seus baixos salários e a vontade de comprar algo que muitos têm, mas que, para eles, não existe o direito nem de querer.
Um outro leitor mostrou na edição do último dia 17, na Folha de Londrina, como esse pensamento é comum. A frase título "Natal do Amor? Não, não é assim!", é sobre a Praça Tomi Nakagawa: "O cidadão de bem não pode utilizá-la (a praça), pois a mesma encontra-se dominada por usuários de drogas, brigas constantes de gangues, assaltos e cenas pitorescas como meninas menores de idade dançando funk de maneira vergonhosa". E que, por isso, o "cidadão de bem" - o pai de família, a dona de casa, o estudante - não pode se misturar num lugar como esse. Termina dizendo: "Quer ter um Natal tranquilo (...) não vá à praça!".
Essas opiniões alimentam, de maneira discreta, a criação de dois
esterótipos como um paradoxo: o cidadão de bem x esse tipo de gente (pobres, pretos, gays, lésbicas, travestis, transexuais, umbandistas, candomblecistas - todos que fujam da norma heterocaucasiana cristã).
Primeiramente, ignora-se o fato de que, muitas vezes, um homem bem
vestido e que se comporta adequadamente nos espaços públicos cidadão de bem - pode ser um estuprador, usuário de drogas, financiador do tráfico e agressor.
Em segundo lugar, "esse tipo de gente" também é pai de família, também é dona de casa, também estuda até tarde e trabalha. A diferença é que provavelmente trabalhe muito mais e ganhe muito menos do que quem compõe a norma e tem muito menos possibilidades e nenhum privilégio. Mas "esse tipo de gente" também gosta de se divertir, de passear num parque, de ir a um show, de comprar roupa da moda, de ter um smartphone.
"Esse tipo de gente" quando tenta ocupar espaços que lhes são
legítimos, assim como o são para todos os cidadãos de bem espaços públicos sem catracas, sem seguranças particulares - sofre com o preconceito, com a hipocrisia. "Esse tipo de gente" quando faz um evento colorido na Concha Acústica é recebido com bombas que são atiradas pela janela. Toma "geral" da polícia, é acusado, ameaçado e espancado, simplesmente por andar na rua.
"Esse tipo de gente" existe por mais que, para muitos, ainda seja
invisível. E por ser invisibilizado incomoda quando aparece.
Incomoda quando busca direitos iguais, incomoda quando busca ter acesso às mesmas tecnologias e comodidades. A algumas pessoas,
incomoda ver o moleque que lava seu carro comprando na mesma loja da qual ele é cliente. Incomoda ver o travesti trabalhando ao seu lado, o homossexual casando civilmente.
O grupo de jovens no shopping de Guarulhos agiu com a intenção de ser notado. O Cabaré Diversidade aconteceu para que a diversidade sexual fosse notada.
O que toda essa população, comum e erroneamente chamada de minoria, quer é poder conviver em sociedade da mesma forma que os chamados cidadãos de bem. Não praticou nenhum crime. Pratica crime quem a acusa injustamente: racismo, injúria, calúnia. A intolerância do "cidadão de bem" leva à agressão, seja ela física, psicológica ou verbal.
ÍRIA STEIN SIENA é psicóloga em Londrina
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