ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 2013
Manuel Joaquim R. dos Santos 
Na Estação São Francisco Xavier da Supervia, na zona norte do Rio de Janeiro, durante a enchente, três homens passaram a manhã de quarta-feira fazendo a travessia de passageiros de um lado a outro de uma ligação subterrânea usando um carrinho de supermercado, ao preço de R$ 1. Eles pretendiam passar o dia todo por lá. Mulheres e crianças que precisaram ser carregadas no colo pagavam R$ 2.
O Brasil é de fato o país dos contrastes! Não me refiro ao fosso já inúmeras vezes denunciado, da distância entre os pobres e os mais avantajados. São outros paradoxos e contradições. Nos seduz a alegria contagiante e o grito de esperança que brotam no olhar de gente, que mesmo mergulhada em inúmeros problemas, acredita no melhor. Ficamos impressionados com a generosidade de tantos empresários que, apesar da carga tributária pesadíssima, socorrem, longe dos holofotes, inúmeras entidades carentes. Ficamos sensibilizados com a acolhida do povo brasileiro aos emigrantes e refugiados vindos de todos os cantos do mundo.
Mas cenas como a anteriormente mencionada, nos fazem chorar de tristeza e dor, pois engrossam tantas outras denúncias de roubos em mercados inundados, de assalto a cadáveres expostos em catástrofes naturais. O Brasil da barbárie. O país anos-luz distante da civilização que há muito caracteriza a terra dos homens. A nação cujos filhos, infelizmente, depõem contra o desejo legítimo da sua mãe, de aparecer evoluída e civilizada aos olhos do mundo.
O Brasil da Copa de 2014. Da Copa que em se perdendo, exporá ao léu investimentos estratosféricos, desperdícios vários e gastos equivocados, e em se ganhando cumprirá o desserviço de nos fazer esquecer qual a real situação e nos iludir quanto a um futuro totalmente incerto.
O Brasil da Copa em que os índices da educação nos fazem passar vergonha ano após ano, e em que o PIB caminha a passos errantes e inversos ao que seria de esperar de uma economia dita emergente. O país das cidades sem soluções e da mobilidade urbana truncada nos cruzamentos da miopia e da falta de vergonha de políticos ocos de ideias. O Brasil real que busca desesperadamente em acontecimentos internacionais, como Copa e Olimpíadas, o medicamento eficaz para sua reanimação. Como se mudanças profundas e infraestruturas, surgissem por decreto ou fossem aparecer na manhã seguinte de uma vitória esportiva.
Pobre Brasil dos que cobram R$ 2 para ajudar a sair de uma enchente. Triste do país que convive com essas contradições gigantes e empurra seu futuro com "a barriga", usando uma expressão bem nossa.
As desgraças naturais não são tão "naturais" assim em cidades que há anos convivem com o mesmo problema. Mas o "cidadão lobo coiote" que vê na desgraça alheia oportunidades de faturar ou de levar vantagem, esse sim é fruto de tragédias anunciadas, como a ausência de uma instituição familiar sólida e geradora de personalidades e de um sistema educacional falido. O Estado será repressor com esses indivíduos e dará espetáculos midiáticos de prisões infernais, mas não percebo nenhuma atitude arrojada e sábia que no futuro próximo elimine essas aberrações.
Sonhamos com um país grande. Grande economia. Grande na igualdade de oportunidades. Grande em harmonia e paz. Grande na tolerância. Grande enfim, na sua capacidade de superar essas aberrações que nos fazem chorar.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
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