ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de dezembro de 2013
Paulo André Chenso 
Algumas das recentes manchetes de jornais informam que faltam médicos em UTIs. Mas há médicos. A Unidade Básica de Saúde não tinha médico. Tinha sim. O plantão de tal hospital fechou por falta de médicos. Não faltou, não. Faltam médicos nas regiões periféricas, nas pequenas cidades do interior. É mentira. O que falta é vergonha na cara das autoridades "responsáveis" pela saúde, especialmente o governo federal, responsável direto pelo SUS.
Há dez anos vivemos o descaso, a incompetência e a inoperância no setor de saúde. Uma politicalha sórdida, a começar pela Presidência da República, que atribui a atual situação de descalabro que vive a saúde exclusivamente aos médicos. Fazem discursos inflamados, permeados por mentiras e iniquidades, tentando jogar nas costas dos médicos a culpa pelo que está acontecendo. Mas dizer a verdade, ah, isso, jamais! Admitir a falência, a falta de planejamento, a cupidez, a falta de investimentos, os intermináveis desvios. Isso também não!
Ao trazer os médicos de Cuba, o que o governo conseguiu foi continuar garantindo atendimento médico a salários miseráveis, aceitos pelos médicos cubanos porque, por pior que seja o Brasil, ele ainda é melhor do que Cuba, além de um doce alento de liberdade jamais experimentado por esses profissionais. Portanto, o governo continuará garantindo o atendimento à custa, novamente, da exploração desavergonhada do trabalho médico.
Gostaria de lembrar, ao distinto leitor, que médico é um profissional liberal como qualquer outro, como advogados, engenheiros, dentistas ou agrônomos. Com profissão regulamentada e fiscalizada pelo Conselho Federal de Medicina e conselhos estaduais. E assim como qualquer outro profissional, fez de sua juventude uma permanente luta até se formar, e ter autorizada a prática da profissão. Como qualquer pessoa, o médico tem família, filhos, veste-se, se alimenta, precisa se atualizar continuamente com livros, videoaulas, congressos, teleconferências, o que custa caro. Precisa de um carro para se deslocar para dois ou até três hospitais mais seu consultório, todos os dias. E, finalmente, está sujeito à crueldade do sistema capitalista e à brutal carga tributária como qualquer outro cidadão.
O governo insiste em pagar valores vexatórios aos médicos e aos hospitais. A cada dia fecham-se pequenos hospitais que não suportam o impacto econômico, e não recebem qualquer amparo. Nos últimos anos centenas de leitos hospitalares e de UTI foram desativados. Nenhuma atitude do governo federal para tentar preservar esses leitos. A sociedade, por sua vez, vê o médico como aquele que é obrigado a atender a todo mundo, praticamente de graça, assumindo responsabilidades que não são suas, e ver o dedo incriminador da sociedade apontando para ele à menor suspeita de erro médico. Não fomos nós médicos - que criamos essa situação deplorável em que se encontra a saúde para isto existem os políticos. Enquanto a Presidência da República gasta r$ 53 bilhões distribuindo bolsas família (este é o gasto apenas da presidente Dilma) até agora, fomentando a vagabundagem (mas garantindo os preciosos votos), por que não investe mais na saúde? Não é só melhorar o salário dos médicos, é dar condições mínimas para que ele possa trabalhar, é estabelecer planos de carreira, é agir como um governo de verdade, sério e responsável,e não como uma enorme comédia bufa que vem sendo encenada há dez anos, onde o bufão-mor é o ex-presidente Lula.
Sentado atrás de uma mesa, numa confortável poltrona, com ar-condicionado e outras regalias, um salário nababesco, além das "ajudas de custo", e sem nunca ir até a janela para ver a realidade, como soe ocorrer com a maioria dos políticos em Brasília, fica fácil encontrar culpados para os crimes que praticam contra a Nação e contra os cidadãos. Pena que grande parte do eleitorado seja cega e surda. Houvesse escolas de verdade formando cidadãos, jamais seriam eleitos. Os políticos brasileiros sobrevivem parasitando o cadáver da Nação, como sobrevivem os vermes sobre carniças e carcaças.
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e professor em Londrina
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